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“Receio ser uma operadora de supermercado com estudos superiores”

“Receio ser uma operadora de supermercado com estudos superiores”

O AS Digital Diário continua a sair à rua para falar com as portuguesas e portugueses sobre o estado da Nação e mostrar rostos deste país onde a austeridade expansionista deixou marcas profundas no seu quotidiano.
Entrevista de rua V

Foi precisamente há 1567 dias que Pedro Passos Coelho, candidato a primeiro-ministro, visitou a Escola Secundária do Forte da Casa, concelho de Vila Franca de Xira. Na altura, os alunos perguntaram-lhe: “Vai tirar os subsídios de férias aos nossos pais?”. De imediato, respondeu perentório o então candidato a chefe do Governo: “Eu nunca ouvi falar disso no PSD. Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate”.

Devido às interrupções letivas, o AS Digital Diário foi à zona envolvente deste estabelecimento de ensino para falar com possíveis alunos e saber o que pensam sobre o estado da Nação.

Joana Mateus tem 17 anos e frequenta o 12º ano na Escola Secundária do Forte da Casa. “Não confio nos políticos e cada vez mais penso que Portugal precisa de verdadeiros independentes”, disse naturalmente.

Questionada sobre o motivo de tanta convicção, Joana Mateus lembra: “Foi aqui na minha escola que Passos Coelho disse que não aumentava impostos e se o tivesse que fazer era para evitar mexer nas pensões mais reduzidas”.

“Com tantas promessas”, frisou esta estudante revoltada com as declarações eleitoralistas, “Passos Coelho aumentou todos os impostos que pôde e ainda mexeu nas pensões dos idosos. A minha avó vive com uma pensão muito baixa e ainda teve cortes. Vive obviamente com a ajuda dos meus pais e tios”.

Acompanhada por uma colega de turma, Filipa Santos, de 18 anos, com algum sentido de humor, diz que “até podíamos dar o desconto por se tratar de uma visita no ‘Dia das Mentiras’, mas foram ações que prejudicaram as vidas dos nossos avós, pais e neste momento a nossa geração jovem”.

“Eu tenho uma boa média e quero seguir Enfermagem, mas o meu maior receio é ser uma operadora de supermercado com estudos superiores. Não desrespeito essa profissão, mas com este tipo de políticas os jovens, ao acabarem as suas licenciaturas, vão trabalhar em funções a receber como se tivessem a escolaridade mínima, ou preferem sair do país, e isso é triste para um estudante que tem à partida um bloqueio no seu percurso académico”, acrescentou Joana Mateus.

Já Filipa Santos, aluna repetente, adianta que irá terminar os estudos secundários e trabalhar para ajudar a família. “Os meus pais não têm dinheiro para eu ir estudar para Lisboa e precisam da minha ajuda no café que gerem”, desabafa.

Desiludida, Joana Mateus conclui que “preciso de tempo para voltar a confiar nos partidos políticos”.

Já Filipa Santos diz que “é a primeira vez que vou votar e a única coisa que sei é que não será neste Governo”.

Duas jovens, dois rostos de Portugal, duas estudantes que partilham a suas histórias tão idênticas a tantas outras Joanas e Filipas.

Recorde-se que a 30 de junho de 2011, três meses depois da visita a esta escola, Pedro Passos Coelho, já no cargo de primeiro-ministro, anunciou um imposto extraordinário equivalente a 50% do subsídio de Natal, em sede de IRS, para valores acima do salário mínimo nacional, ou seja, 485 euros à época.

Reportagem de João Pedro Baião