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Linha vermelha perante a extrema-direita faz do PS “um garante da democracia política e social”

Linha vermelha perante a extrema-direita faz do PS “um garante da democracia política e social”

O Secretário-Geral Adjunto do PS, João Torres, alertou ontem para o imperativo de traçar uma “linha vermelha” perante a extrema-direita, sendo essa clareza o que faz do Partido Socialista “um garante” da democracia em Portugal, criticando o posicionamento “equívoco” e “condescendente” da direita democrática portuguesa para com os extremismos.

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João Torres

“No nosso país, em Portugal, somos obrigados a concluir que a direita democrática é, de alguma forma, condescendente com os extremismos. Na melhor das hipóteses, podemos pelo menos afirmar que o seu posicionamento é demasiadas vezes opaco, demasiadas vezes equívoco, demasiadas vezes labiríntico”, declarou João Torres, na conferência internacional Next Left, sob o tema ’Não passarão! O imperativo do combate aos extremistas de direita!’, que decorreu no ISCTE, em Lisboa, e que contou com a participação do antigo primeiro-ministro espanhol, José Luís Zapatero.

Na sua intervenção na iniciativa, que foi organizada pelo PS em conjunto com a Fundação Europeia para os Estudos Progressistas (FEPS) e o Instituto Karl-Renner, o ‘número dois’ da direção socialista considerou ser “desolador” constatar que as forças políticas democráticas não coloquem “em uníssono uma linha vermelha perante a extrema-direita em Portugal”.

“Nós, no PS, colocamos. E o PS é, por isso, um garante da democracia plena, isto é, um garante simultâneo da democracia política, mas também da democracia social”, afirmou.

João Torres recordou depois que, em 2024, se vão assinalar “50 anos de democracia em Portugal”, lembrando que “a história já mostrou a milhões de portugueses o que é viver no obscurantismo, num regime totalitário, persecutório e inimigo da realidade”.

“A melhor forma de a democracia se defender e fortalecer passa por um maior envolvimento dos cidadãos, por mais e melhor informação e pedagogia, por uma contínua prestação de contas, pelo reforço da transparência e pela construção de soluções concretas”, defendeu.

No entender de João Torres, “Portugal é um bom exemplo para o mundo” do sucesso das democracias, uma vez que o período democrático corresponde precisamente “ao período de maior desenvolvimento económico e social” do país, que tem uma “já quase história milenar”.

“As armas, os populistas e as ferramentas da extrema-direita têm padrões semelhantes em Portugal, na Europa e no mundo. Temos, por isso, de cerrar fileiras: partilhando experiências, abraçando estratégias e estimulando os nossos desígnios comuns”, apelou.

“Os portugueses sabem que podem contar com o PS para este combate absolutamente cerrado contra o extremismo e contra o extremismo da extrema-direita”, concluiu o Secretário-Geral Adjunto do Partido Socialista.

Extrema-direita é “doença que pode ser fatal para a democracia”

Intervindo também na conferência, o deputado socialista e presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, advertiu que o avanço da extrema-direita representa uma “doença” que “pode ser fatal para a democracia”.

“Creio mesmo que o avanço da extrema-direita da Europa é uma doença, é uma doença que progride, que enfraquece e que pode ser fatal para a democracia liberal com o forte cunho social que é a democracia europeia”, declarou.

Para travar esta “doença”, Augusto Santos Silva propôs um conjunto de “dez remédios eficazes” para “curar as sociedades do seu vírus”, começando por destacar que o foco deve estar “claramente” no combate ao extremismo de direita, não só por ser aquele que mais perigosamente está a crescer, mas também, como salientou, por ser “falsa” uma equivalência que é feita entre os extremismos de esquerda e de direita.

“A extrema-esquerda não pratica a xenofobia, não usa o ultranacionalismo, não usa a homofobia, não nega as regras democráticas, não é anti-pluralista, não é antirracionalista, e portanto não é possível estabelecer nenhuma espécie de equivalência entre os dois extremos”, sustentou.

Apesar disso, Santos Silva sublinhou que também não se deve ignorar “o populismo que alimenta a extrema-direita”, salientando que esse tipo de movimento está presente em vários movimentos que “praticam violência urbana” e “degradam o uso das greves”, apagando “as fronteiras com a extrema-direita” e permitindo “a circulação entre os dois extremos”.

No que se refere ao papel que a “esquerda democrática” deve desempenhar, o presidente do Parlamento preconizou que deve ser de “intransigência”, denunciando o populismo “onde quer que ele exista”.

“Essa demarcação clara da esquerda democrática face à extrema-direita, contrasta, em vários países europeus e incluindo em Portugal, com a tolerância e até alguma cumplicidade que a direita democrática, a direita clássica ou o centro-direita, vem manifestando para com a extrema-direita”, contrapôs.

Augusto Santos Silva defendeu também que este combate “intransigente” ao extremismo não deve significar que se deva combater o seu eleitorado, mas antes compreender as razões que o motivam.

“Uma grande parte da força do extremismo hoje vem de perceções e de sentimentos populares de medo, de insegurança, de frustração, e esses sentimentos não podem ser negados e têm de ser compreendidos”, defendeu, acrescentando que, para tal, a esquerda deve manter-se “coerente” e não abdicar “das causas e valores que são fundacionais”, como a “economia social regulada de mercado”, o “crescimento para a distribuição”, a “fiscalidade progressiva” ou o “cosmopolitismo”.

“São valores constitutivos da esquerda democrática que não devem estar sujeitos a nenhum efeito de moda”, afirmou.

Simultaneamente, apelou a que a esquerda democrática não abandone o seu eleitorado tradicional – citando setores como os pensionistas, os “operários industriais” ou os agricultores -, e alertou que, caso esses segmentos sejam abandonados, o mais provável é juntarem-se à extrema-direita, que “os manipula”.

Entre os “remédios” que preconizou contra os extremismos, Augusto Santos Silva recomendou, também, que os partidos situados no centro-esquerda não “se deixem erodir nem comandar pelas guerras de trincheira entre identidades”, defendendo, por outro lado, que as instituições democráticas devem ser “frontalmente contrárias a qualquer espécie de judicialismo” ou “pulsão de pensar que os males da política se resolvem fora da política”.

Para o presidente da Assembleia da República, da mesma forma que os ministros devem ser julgados “pelas políticas que realizam”, os partidos políticos devem sê-lo “pelo resultado das políticas que defendem”.

Augusto Santos Silva preconizou ainda que as forças democráticas tenham uma “presença assídua em todos os veículos de mediação na sociedade civil”, procurando, designadamente, “influenciar” tanto os “velhos ‘media'” como as redes sociais.

“Foram estes remédios que eu consegui encontrar contra o aumento da extrema-direita, e devo confessar (…) que eles me parecem bastante eficazes”, concluiu.

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