“Insensibilidade e sobranceria são as duas palavras que encontro”, afirmou o Secretário-Geral do PS, esta quarta-feira à noite, durante o programa ‘Guerra e Paz’, do canal NOW.
Avisando que os socialistas não poderão estar “permanentemente nesta tentativa de diálogo com quem não quer dialogar connosco”, o líder do partido defendeu que “um Governo que não tem maioria absoluta e que carece de apoio no Parlamento tem a obrigação de dialogar com a oposição”.
Sustentou ainda que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, “tem de se definir”, esclarecendo com quem pretende “construir a solução de estabilidade para o país”.
Em causa, explicou, estão propostas socialistas “muito importantes”, designadamente nas áreas da defesa, da resiliência do território, da criação de emprego e fixação de talentos, bem como da valorização do interior, “para que Portugal não queira ser apenas recetáculo de compras do exterior, mas também um país que constrói oportunidades para vender e para exportar”.
Insistindo no facto de o PS ter apresentado propostas “com espírito construtivo”, José Luís Carneiro recordou que sempre afirmou que o partido faria “uma oposição firme e responsável”.
“Somos um partido moderado, somos um partido de governo, temos uma experiência histórica e provas dadas”, vincou, acrescentando que, “com humildade democrática”, o PS tem dado passos no sentido do diálogo, enquanto o Governo “tem feito questão de ignorar as propostas do Partido Socialista”.
PS exige humildade democrática ao Governo
Nesse sentido, considerou “bom que o Governo tenha consciência dos atos de responsabilidade política e de serviço ao país que o PS tem realizado”, lembrando a abstenção socialista na aprovação do Orçamento do Estado para 2026.
O PS, garantiu, “está disponível para servir o país”, mas exige “humildade democrática da parte do Governo para dialogar e querer construir”.
Depois de deixar claro que todas as propostas avançadas pelo Partido Socialista têm enquadramento nas contas do executivo, alertou que, mesmo com estabilidade assegurada na Presidência da República nos próximos cinco anos, um Governo sem maioria tem de construir soluções parlamentares.
“Até agora, o primeiro-ministro tem escolhido o Chega e tem escolhido André Ventura”, criticou, defendendo que o executivo deve decidir se quer continuar a fazer desse partido o seu “parceiro fundamental”.
Neste ponto, fez notar que o primeiro-ministro “não pode desconsiderar o PS nem o seu líder”, nem permitir que, enquanto diz querer dialogar, surjam ofensas ao líder da oposição.
“O primeiro-ministro tem de decidir se quer estabelecer um diálogo construtivo com um partido que quer defender a Constituição e a democracia, ou se quer construir uma alternativa política com quem se tem proposto ir contra os valores constitucionais e até quer criar uma república”, enfatizou, alertando que existe “um campo democrático e constitucional” que se está a afastar das opções do atual Governo.
Reivindicando a importância das soluções concretas apresentadas pelo PS, destacou a proposta para a gestão da emergência hospitalar, que, assinalou, é aquela a que mais o “sensibiliza”.
“Dissemos ao primeiro-ministro que o que nós queríamos é que o Governo pusesse em prática estas ideias para que não houvesse as falhas a que estamos a assistir”, resumiu, acrescentando que o PS poderia ter ficado à espera de que as coisas corressem mal, “mas não queremos que corram mal e por isso temos dado o nosso contributo”.
Estabilidade precisa garantir respostas ao país
Recordou ainda a apresentação, no início de fevereiro, de setenta medidas para responder à crise provocada pelo mau tempo, para assinalar que “o que o PS quis transmitir ao Governo é que estamos aqui para ajudar numa altura difícil”.
Num tom mais pessoal, garantiu que, se estivesse no lugar de Luís Montenegro, “pegaria no telefone” para ligar ao líder da oposição, sublinhando que a sua “relação preferencial seria com os sociais-democratas”.
E enfatizou que “a estabilidade não é um fim em si mesmo”, devendo servir para responder às matérias fundamentais do país.
Por isso, reiterou a disponibilidade para se sentar à mesa com o Governo, com o patrocínio do Presidente da República, para “discutir temas de interesse nacional” como soberania, segurança interna, planeamento civil de emergência, saúde e habitação e “construir soluções duradouras.
Indicou igualmente que, ao afirmar que “a paciência tem limites”, quis “deixar um aviso” a Montenegro.
“O primeiro-ministro não deve abusar da confiança que os outros lhe querem conferir enquanto chefe do Governo”, advertiu lembrando que, ao apresentar propostas, o PS está a “respeitar a escolha dos portugueses”.
Por fim, em matéria de política externa e europeia, deplorou que Montenegro tenha feito anúncios “lá fora” sem ouvir os partidos da oposição, entendendo que “devia haver diálogo em temas internacionais”.
“São matérias que devem ser objeto de um diálogo regular entre o primeiro-ministro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o ministro da Defesa Nacional e aqueles que, na oposição, acompanham estas matérias, particularmente no domínio parlamentar”, concluiu.