Contributo para a Resposta Integrada à Emergência e à Revitalização Territorial Pós-Tempestade Kristin
Contributo para a Resposta Integrada à Emergência e à Revitalização Territorial Pós-Tempestade Kristin
Proposta de Programa Nacional de Recuperação, Estabilização e Resiliência Climática
A Tempestade Kristin constituiu um dos episódios climáticos mais severos das últimas décadas em Portugal. Produziu impactos humanos, sociais, económicos e ambientais que ultrapassam os mecanismos rotineiros de resposta. Contudo, dadas as previsões meteorológicas que persistem adversas, bem como outros efeitos que ainda se verificarão, existem riscos que ainda importa acautelar.
O Partido Socialista apela à união de todos os portugueses, à solidariedade entre comunidades e ao respeito estrito pelas indicações das autoridades. As populações que se mobilizaram, os voluntários, as forças e serviços de segurança, as Forças Armadas, os serviços de proteção civil, os corpos de bombeiros e os serviços de emergência médica, bem como todos os autarcas e trabalhadores dos municípios e freguesias são merecedores do nosso reconhecimento e gratidão.
Insistimos na imediata ativação do mecanismo europeu de proteção civil e a retoma das prioridades definidas na Estratégia Nacional de Proteção Civil Preventiva e da implementação do planeamento civil de emergência. No que respeita à recuperação, estabilização e reforço da resiliência, o território afetado requer agora um instrumento integrado, assente na seguinte sequência:
- Revisão dos termos de decretamento da situação de calamidade declarada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 15-B/2026, de 30 de janeiro.
- Pacote de medidas urgentes e multissetoriais.
- Programa de revitalização estrutural.
- Estratégia de reforço da resiliência climática.
Este Programa Nacional de Recuperação, Estabilização e Resiliência Climática tem os seguintes objetivos estratégicos:
- Restabelecer rapidamente condições de segurança, mobilidade e habitabilidade.
- Mitigar perdas económicas e do emprego e apoiar famílias, empresas, autarquias, setor social e o movimento associativo.
- Repor a integridade ecológica de bacias hidrográficas e solos degradados.
- Reforçar a resiliência estrutural das infraestruturas críticas.
- Transformar a crise num ponto de viragem para adaptação climática.
Estabilização de Emergência
- Prorrogação do prazo da situação de calamidade declarada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 15-B/2026, de 30 de janeiro e reavaliação da necessidade de integração de outros concelhos no respetivo âmbito, nomeadamente nos distritos de Aveiro e de Coimbra e na Lezíria do Tejo.
- Garantir a mobilidade de pessoas e bens:
- Reabertura urgente de vias estruturantes, com solução provisória quando necessário para garantir circulação de bens e serviços.
- Identificar e sinalizar percursos alternativos às vias que tenham ficado intransitáveis, isentando o pagamento de portagens nos mesmos, caso existam (ex: A8 entre Leiria e Marinha Grande).
- Repor os serviços de transportes coletivos rodoviários e ferroviários, em particular os serviços ferroviários de longo curso que se mantêm interrompidos entre Lisboa e Braga, com serviços alternativos para o troço Soure – Coimbra (em que se mantém interrompida a Linha do Norte).
- Proteção Civil e Infraestruturas Críticas
- Reabilitação de taludes instáveis.
- Implementação de sistemas redundantes de fornecimento elétrico.
- Inventário exaustivo de danos. Para garantir rigor e comparabilidade:
- Metodologia única com classificação de tipologias de danos (habitação, infraestruturas viárias, equipamentos sociais, redes técnicas, património, solos, linhas de água, atividades económicas).
- Geo-referenciação.
- Entrega de relatório final em 45 dias.
- Apoio às famílias:
- Programa Habitar para apoio a famílias com perdas totais ou severas, com apoios reforçados para reparação de danos estruturais que coloquem em causa a habitabilidade e a segurança das habitações.
- Mecanismo temporário de apoio a vagas sociais ou em estabelecimentos hoteleiros para desalojados, em particular idosos;
- Alojamento temporário garantido com cofinanciamento estatal, designadamente mobilizando Pousadas de Juventude e instalações da Fundação INATEL.
- Apoio extraordinário a rendas para agregados familiares que ficaram privados de habitação própria permanente.
- Apoio psicológico imediato às populações.
- Programa de substituição de bens essenciais e mobiliário doméstico.
- Suspensão temporária de despejos e reforço da proteção social.
- Mobilização de equipas de reconstrução e outro pessoal de apoio, com base em reforço de apoios de tipo ocupacional (atual programa MAIS, antigos contratos CEI).
- Assegurar cadeias de distribuição e apoios ao acesso a materiais de construção.
- Criação imediata de uma bolsa de voluntários para apoio e coordenação aos esforços de voluntariado, em articulação entre CASES e estruturas do setor.
- Criação de equipas multidisciplinares entre a Segurança Social e a Saúde, que garantam visitas aos ERPI no sentido de avaliar as necessidades urgentes destas instituições e dos seus utentes em matéria de saúde, dispositivos médicos, saúde mental, energia e segurança.
- Assegurar acompanhamento às comunidades emigrantes na preservação e reabilitação de património afetado.
- Apoio ao emprego, às empresas, setor social e movimento associativo:
- Apoios a Empresas para compensação de perdas de atividade e danos estruturais (também para trabalhadores independentes e empresários em nome individual), contemplando também apoios a fundo perdido.
- Ativação imediata para o terreno de equipas integradas compostas por IEFP, Segurança Social e Ministério da Economia para acompanhar e agilizar apoios a empresas afetadas nos diferentes territórios.
- Apoio à preservação dos postos de trabalho (recuperar as medidas de apoio à manutenção do emprego e de lay-off simplificado adotadas durante a pandemia).
- Adiamento e isenção das obrigações fiscais e contributivas das empresas afetadas.
- Negociação com as seguradoras de crédito para garantir proteção das exportações da região afetada.
- Apoio às autarquias locais:
- Fundo de Emergência Municipal para intervenção imediata.
- Mecanismo extraordinário de apoio às autarquias para reposição de infraestruturas essenciais.
- Flexibilização dos limites de endividamento das autarquias locais.
- Simplificação administrativa:
- Apoiar as medidas de simplificação administrativa, designadamente no que diz respeito a autorizações e licenças e procedimentos de contratação pública.
- Forte cuidado no desenho das medidas no que diz respeito ao acesso rápido e desburocratizado aos apoios.
- Isenções fiscais para donativos.
- Isenções de taxas e emolumentos devidos pelas intervenções necessárias.
Recuperação Integrada, Resiliência e Reordenamento Climático
- Habitação e Equipamentos Públicos
1.1 Habitação
- Regime excecional de reconstrução simplificada para habitação permanente destruída.
- Subsídios diretos às famílias para reparações estruturais e reequipamento doméstico (climatização).
- Programa de eficiência energética associado à reconstrução, promovendo edifícios mais resilientes.
1.2 Equipamentos públicos
- Reconstrução de escolas, centros de saúde, lares, pavilhões e quartéis de bombeiros.
- Critérios resilientes obrigatórios: capacidade de abrigo, autonomia energética parcial, resistência estrutural reforçada.
- Economia, Emprego e PME
2.1 Medidas imediatas
- Ativar o Sistema de Apoio à Reposição das Capacidades Produtivas e da Competitividade aprovado pelo Decreto-Lei n.º 4/2023, de 11 de janeiro.
- Compensações diretas a empresas por perda de stock, equipamentos, mercadorias e interrupção de atividade.
- Isenção temporária de contribuições sociais para empresas afetadas.
- Programa de manutenção do emprego financiado pelo Estado, designadamente convertendo as linhas de crédito em apoio a fundo perdido às empresas que mantenham o nível de emprego no final do ano.
- Em articulação com lay-off simplificado, apoios ágeis a formação para trabalhadores e empresas cujos estabelecimentos estejam encerrados ou com quebras de atividade significativas
2.2 Medidas de revitalização
- Linhas de crédito de médio prazo para retoma operacional.
- Subvenções não reembolsáveis para PME até ao limite de 7.500 euros para financiar até 80% das despesas elegíveis.
- Criação de Circuitos Económicos Resilientes para reforçar cadeias de abastecimento locais.
- Desenvolvimento de programas de inovação aplicados à adaptação climática empresarial.
- Turismo e Lazer
- Programa de valorização turística e do comércio local e promoção especial dos territórios afetados.
- Reposição e certificação de trilhos, passadiços, centros interpretativos, miradouros e zonas de visitação.
- Programa de comunicação “Territórios em Regeneração”, para acelerar o retorno de fluxos turísticos.
- Incentivos a alojamentos e restaurantes para implementarem infraestruturas resilientes, como sistemas de escoamento reforçados, energia renovável de emergência e proteção contra vento extremo.
- Agricultura e Pecuária
4.1 Resposta imediata
- Apoio financeiro para alimentação animal, reposição de maquinaria e reparação de estufas.
- Indemnização por perdas diretas de culturas e solo arável.
- Apoio à drenagem e reabilitação de campos alagados ou compactados.
4.2 Recuperação
- Linhas de apoio à reconfiguração de sistemas de rega.
- Medidas para evitar erosão severa.
- Apoio à reconstrução de muros e caminhos rurais.
- Energia e Comunicações
- Substituição acelerada de postes por estruturas resistentes.
- Enterramento de cabos em zonas de exposição extrema.
- Planos de contingência local para falhas prolongadas de rede móvel e internet.
- Incentivo à instalação de microgeração para serviços críticos (lares, centros de saúde, quartéis).
- Legislar a implementação do roaming nacional: à semelhança do que se passa na União Europeia, tornar possível que um cidadão residente em Portugal se possa conectar à rede de qualquer outro operador quando o operador com que tem o serviço móvel contratado não disponha de cobertura num determinado local.
- Ambiente, Bacias Hidrográficas e Ordenamento
6.1 Estabilização de emergência
- Remoção de sedimentos e árvores caídas em linhas de água, garantindo escoamento controlado.
- Reforço de margens com soluções naturais (bioengenharia), privilegiando materiais locais.
- Reparação de açudes, regularização de leitos e restauro imediato de canais críticos.
6.2 Recuperação ecológica
- Programa de recuperação de habitats degradados.
- Reflorestação com espécies preferencialmente autóctones resistentes a extremos climáticos, evitando monoculturas vulneráveis.
- Intervenção em áreas de deslizamento e arribas costeiras.
6.3 Gestão do risco futuro
- Criação de cartas de risco hidrometeorológico com base em cenários até 2050.
- Cultura
- Intervenção de salvaguarda em edifícios históricos e património cultural: estabilização estrutural, proteção temporária contra água, inventário de bens culturais danificados.
- Apoio aos profissionais da Cultura, atenta a interrupção da respetiva atividade.
- Financiamento da resposta a catástrofes
- Criação de um fundo financeiro de carácter permanente, de financiamento estatal e centralização de donativos de ajuda humanitária, de respostas a catástrofes naturais assente em procedimentos céleres e desburocratizados de acesso.