Opinião: O efeito borboleta da democracia


(Artigo de opinião escrito originalmente para o Diário de Notícias)

Maria Antónia Almeida Santos

O efeito borboleta da democracia

Nunca na história da humanidade se produziu, registou e conservou tanto conhecimento como no momento em que vivemos.

E em momento algum da história do mundo se discutiu tanto sobre conceitos como democracia, liberdade, paz e desenvolvimento sustentável. Os avanços tecnológicos, nomeadamente nos meios de comunicação e através das redes sociais, permitem-nos uma troca de ideias em estado de ebulição quase permanente e à escala global. No entanto, creio por vezes que também nunca como agora se assistiu tão flagrantemente ao fenómeno da superabundância da informação estéril de conhecimento.

Paralelamente, a nossa crescente capacidade de comunicar globalmente não é acompanhada pela nossa capacidade de mobilização para uma resposta coletiva e efetiva a problemas sistémicos.

Temos como exemplo a questão das alterações climáticas. Há já décadas que a comunidade científica nos alerta para as consequências dramáticas do impacto das atividades humanas no planeta, nomeadamente a queima de combustíveis fósseis e as enormes quantidades de gases com efeito de estufa provenientes da mesma. Apesar destes avisos, e fazendo mau uso da liberdade que a democracia lhes proporciona, ainda subsistem correntes negacionistas que, cultivando a desinformação, tentam manipular o espaço democrático e polarizar a sociedade em torno de um debate infrutífero que tem apenas um desfecho possível— o rumo ao abismo.

Portugal, infelizmente, já está familiarizado com uma das desastrosas consequências das alterações climáticas — o aumento exponencial da dimensão dos fogos florestais e da sua frequência. A este aumento poderão juntar-se outros fenómenos meteorológicos extremos e alterações nos padrões de pluviosidade tais que implicarão mudanças dramáticas e repentinas no nosso modo de vida.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, realçou recentemente a necessidade de uma ação rápida e levantou a questão da responsabilidade política.

Portugal tem estado na linha da frente da transição energética, com as suas ambiciosas metas de neutralidade de carbono nos próximos trinta anos, com o seu recorde na produção de energias renováveis atingido em março e com Lisboa como Capital Verde Europeia 2020.

E o que fazer a nível da mobilização coletiva?

A par da implementação internacional de políticas que promovam o disposto no Acordo de Paris, com o pedido de satisfações aos responsáveis políticos do planeta, de que falou António Guterres, acredito no que chamo de efeito borboleta da democracia.

É conhecida a célebre frase “o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas”. Sem querer abrir aqui um debate sobre o efeito meteorológico da mariposa, acredito que, por vezes, a expressão de uma vontade individual ou de um pequeno grupo de vontades pode gerar a onda que evita o caos. Acreditar que tal é possível não é, afinal, acreditar no mecanismo da democracia? Que se mude as vontades para que, desta vez, seja o tempo a mudar.