Opinião: Uma oposição sem argumentos e sem história


A direita ficou sem discurso e não demorou a folhear todas as páginas do orçamento à procura de foices e martelos e do tal “bolchevismo” e hoje batalha contra medidas “terrivelmente de esquerda”, com a tragédia de nesse discurso ficar sem discurso e sem história.

Ou com os argumentos que afligem a história, para completar o título deste artigo. Desde que o Governo iniciou funções, a oposição perdeu muito tempo a digerir o ressentimento com o normal funcionamento da democracia. Não perdoou à Constituição que o Governo do PS fosse um Governo legítimo, suportado parlamentarmente por todos os partidos de esquerda.

Disfarçado o ressentimento, a oposição que hoje ainda leva o nome de “social-democrata” e de “democrata-cristã” apostou numa estratégia diferenciada: enquanto o PSD faz de morto e espera que aconteça um desastre ao País para que “alguém” o chame ao poder (pelo poder), o CDS decidiu anunciar todas as semanas uma desgraça que há de acontecer, verificando-se depois de sete dias de debates “alarmantes” nos meios de comunicação social que o anunciado não acontece.

Por outro lado, há uma aposta com largo lastro na história: a semântica do medo. Todos os dias ouvimos Assunção Cristas referir-se ao Governo como ao “Governo das esquerdas radicais”. Diz muitas vezes “Governo das esquerdas radicais”, muitas vezes, e, mesmo antes de conhecer o texto do Orçamento do Estado (OE), falou-se em “bolchevismo”, naturalmente para assustar, dramaticamente ignorantes quanto ao significado da palavra.

Entretanto, chega o OE do Governo do PS sobre o qual a direita já tinha dito tudo. Chega quando acabara o modelo ocidental em que vivemos. Acabara qualquer condição de crescimento e de investimento. Estava instalado o clima de debate do PREC.

Ora, de um modo geral, o OE é, em poucas palavras, um orçamento equilibrado, justo nas suas escolhas fundamentais, dentro dos constrangimentos europeus que temos de honrar, cumpre o Programa do Governo e os compromissos internacionais. Para “esquerdista radical”, o OE reduz o défice, a dívida e o peso dos impostos no PIB.

A direita ficou sem discurso e não demorou a folhear todas as páginas do documento à procura de foices e martelos e do tal “bolchevismo” e hoje batalha contra medidas “terrivelmente de esquerda”, com a tragédia de nesse discurso ficar sem discurso e sem história.

Por um lado, o PS demonstrou que a desigualdade se combate por imperativo de decência, ao mesmo tempo que provou que as desigualdades são causa direta do entrave ao crescimento. Por outro lado, quando o Governo, no OE, inscreve medidas como o aumento real das pensões, a atualização do Indexante de Apoios Sociais, o combate à pobreza infantil com o reforço do abono de família para crianças até aos três anos, manuais escolares gratuitos para os alunos do 1.º Ciclo do Básico, a Prestação Única da Deficiência ou o início da universalização do Pré-Escolar aos três anos e a direita continua a falar nas “esquerdas radicais” eu sinto um tremor histórico.

Será possível que a direita de hoje tenha estas medidas básicas de justiça social como estranhas ao seu próprio legado ideológico? Um mediano social-democrata ou um mediano democrata-cristão pode, sem mentir, olhar sem adesão geral para este OE? Não pode.

Porque este OE faz o que um socialista deve fazer sem choque para um social-democrata ou para um democrata-cristão sobrante. Reafirma os compromissos europeus e procura concretizar nas suas várias dimensões a justiça inerente a um Estado social.

A surpresa, a boa surpresa, vem do regresso à normalidade após o laboratório da austeridade expansionista a que CDS e PSD sujeitaram o povo português. PSD e CDS fizeram o laboratório, aderiram ao mesmo e rasgaram as suas vestes ideológicas. Hoje rejeitam medidas banais de justiça social.

Porque se rejeitaram.

(in Visão)