Opinião: Desigualdades: o combate do século XXI


As desigualdades são o cancro da sociedade moderna. Num mundo em que os 1% mais abastados acumulam mais riqueza que os 90% mais pobres, é a própria dignidade da natureza humana que está posta em causa.

São cada vez mais evidentes os contornos do grande combate político do século xxi. O nível crescente de desigualdades conduzirá a um desastre global ou a uma revolução na forma como as sociedades se organizam. O confronto já começou.

A divisão do mundo entre uma pequena minoria de muito ricos e uma enorme massa de remediados e pobres põe em causa os princípios fundamentais que permitiram à humanidade ir evoluindo nas últimas décadas.

O fosso torna cada vez mais difícil a mobilidade social. Entre os países, as comunidades ou as pessoas emergem núcleos de perdedores permanentes e núcleos de ganhadores permanentes, quebrando as dinâmicas de competição saudável, destruindo a motivação e agravando a revolta entre os que ficam fora do campeonato dos vencedores. É no pasto dessa revolta que crescem, viçosos, os novos populismos.

Claro que existem e devem ser sublinhadas as exceções que confirmam a regra. Há vencedores que tudo fizeram para o merecer e são socialmente solidários, e há perdedores que o são por terem desistido de lutar para vencer.

As desigualdades não são hoje apenas um problema de distribuição da riqueza criada. São um problema para a própria criação de riqueza. Ao afastarem cada vez mais pessoas do sistema de aquisição de conhecimentos e competências, promovem a exclusão social e digital. E reduzem o rendimento disponível das famílias, que gera a procura necessária à sustentabilidade dos sistemas de produção e consumo. As desigualdades são a principal causa da desaceleração turbulenta da economia mundial.

São também o terreno profícuo para o início de múltiplos conflitos locais que criam instabilidade nos nossos territórios e aceleram os fluxos migratórios forçados, criando bolsas de recrutamento mais fácil para as dinâmicas terroristas. Contribuem ainda para o crescente desapego dos cidadãos para com a democracia e para uma perigosa rotura entre representantes e representados. Explicam, em grande parte, a erosão do projeto europeu.

Na recente Conferência Socialista 2016, em Coimbra, que abordou os diversos ângulos da questão das desigualdades, do território e das políticas públicas, foram referidas várias políticas muito meritórias de combate às desigualdades, que estão a ser concretizadas pelo atual governo. É um sinal no sentido certo.

No entanto, sendo as desigualdades sobretudo o produto da globalização não regulada, é no terreno global que é preciso lutar por essa regulação – na União Europeia, nas organizações internacionais, na negociação dos tratados comerciais e dos acordos de cooperação multilateral, por exemplo.

Na conferência antes citada, Mariana Mortágua partilhou a necessidade de rever o modelo capitalista atual. Se se referia, como me pareceu referir-se, ao reforço necessário do modelo de regulação da globalização, seja bem-vinda. Todos somos poucos para vencer o combate do século xxi.