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Democracia, liberdade, igualdade – Opinião Edite Estrela


Pela segunda vez e porque os tempos continuam a ser de pandemia, a Assembleia da República comemorou o 25 de abril de forma atípica, com poucos convidados institucionais, com a maior parte das e dos deputados confinados nos respetivos gabinetes, sem cumprimentos e com distanciamento físico. Com cravos vermelhos como sempre e, pela primeira vez, com máscaras de todas as cores.

Nos discursos que merecem ser lembrados no 47º aniversário, foram declinados em diferentes perspetivas e com múltiplos sentidos os conceitos de “democracia”, “liberdade” e “igualdade”. Três vocábulos inteiros e luminosos que encerram o mais importante dos ideais da Revolução dos Cravos. Democracia que nos confere direitos e deveres, nos protege de discriminações, perseguições e abusos e nos garante, a todos por igual, o acesso à educação, à saúde, à segurança social, ao desporto e à cultura. Liberdade de nos exprimirmos contra e a favor sem delito de opinião, de nos reunirmos e manifestarmos, de sermos nós com as nossas singularidades. Igualdade é o terceiro pilar que equilibra, harmoniza e acrescenta sentido aos outros dois.

Nasci, cresci e estudei em ditadura. Ontem, descrevi ao neto mais velho o que era Portugal antes da Revolução. Contei-lhe que a bisavó dele tinha sido a primeira pessoa da aldeia onde nasceu “a ir estudar”, como se dizia então, e que eu tinha colegas que no inverno iam descalços para a escola e com fome. Surpreendeu-se ao imaginar a avó correndo pela alameda da cidade universitária à frente da polícia que nos perseguia sem razão. Falei-lhe desse passado sem liberdade de questionar, quanto mais de discordar. Um passado de medo e gritantes desigualdades. Ficou a saber que o Portugal de antes era muito diferente do que é hoje. Antes era a guerra colonial, o analfabetismo, a mortalidade infantil, o subdesenvolvimento, a pobreza e o “orgulhosamente sós”. Depois, o povo acordou “ para um novo tempo” e mudou “ o rumo ao vento/ para um novo alvorecer”, escreveu Ary. O povo, sujeito do seu destino, escancarou as portas da liberdade, lutou pela democracia e promoveu a igualdade. Portugal abriu-se ao mundo e à Europa, desenvolveu-se e modernizou-se. Concluí, afirmando que por tudo isto e o mais que o texto não comporta, para mim, a democracia é muito mais do que uma escolha, é uma segunda natureza, um modo de vida. A minha respiração livre e segura.

Hoje, ao contrário do que acontecia antes de 74, a democracia não está amordaçada, mas está ameaçada pelos se aproveitam das imperfeições inerentes à natureza humana, exploram o medo, amplificam legítimos descontentamentos, difundem a mentira e o ódio e, porque não têm coerência nem decência, vendem facilidades para comprar votos. Não, o sistema não está “podre”. A democracia é um edifício inacabado, cuja construção e melhoramento a todos compete. Sabemos que não está tudo feito nem tudo foi bem feito. E não vamos esquecer os excluídos do desenvolvimento. Os que ainda vivem na pobreza e na solidão. Os que não têm trabalho e os que, tendo-o, não ganham para ter uma vida digna. E os jovens cujos sonhos a pandemia subtraiu. Mas Abril deu-nos tanto que só por ignorância ou maldade alguém pode ignorar esse legado inestimável. Nós, mulheres e homens que conhecemos o antes e o depois, temos a obrigação de enfrentar o populismo que se alimenta da demagogia e defender a democracia ameaçada. Não esqueçamos que a invasão armada do Capitólio, incitada por quem tinha o dever constitucional de o proteger, aconteceu e deixou sequelas.

Edite Estrela