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48 anos ao serviço de Portugal e dos portugueses – Opinião Edite Estrela


Parabéns ao PS que hoje faz 48 anos. Um ano mais que a Revolução dos Cravos. Às duas datas associo a “Trova do mês de abril” de Manuel Alegre: “Foram dias foram anos a esperar por um só dia. /Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía /com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia/na esperança de um só dia./ Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias./Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram Histórias)/ mil encontros, despedidas. Foram vidas (foi a vida)/ por um só dia vivida”.

Escrevo este texto a pensar nos jovens socialistas, que sabem que a história do Portugal democrático se confunde com a história do PS, mas não têm memória da coragem e valor dos opositores ao regime e do que era fazer política em tempos de ditadura. Basta lembrar alguns factos do muito que passou Mário Soares: esteve doze vezes preso, foi deportado para S. Tomé e esteve exilado em França. É lá que, em 1972, publica Le Portugal Baillonné, traduzido em inglês, italiano, alemão, espanhol, grego e chinês, cuja edição portuguesa, Portugal Amordaçado, só foi dada à estampa em 1974.

Mário Soares, sabemo-lo todos, era um estratego, um visionário, um “animal político” (o zoon politikon de Homero e Aristóteles). Percebeu cedo que a “primavera marcelista” não iria durar muito. E estava bem informado de todas as movimentações antirregime, designadamente, de “uma conspiração militar em marcha” e tinha consciência “de que precisávamos de um instrumento – um Stradivarius”, explica ele no “ensaio autobiográfico, político e ideológico”, Um político assume-se (publicado em 2011), para “quando a Revolução anticolonialista e democrática triunfasse”.

O processo de criação do PS é conhecido. Foi num Congresso, realizado em Bad Münstereifel, com o apoio da Fundação Friedrich Ebert, que a ASP (Ação Socialista Portuguesa), movimento que pertencia à Internacional Socialista desde 1972, se transformou em PS. Na Alemanha, porque “foram os alemães que pagaram tudo, sobretudo os bilhetes de avião, que eram o mais dispendioso”, justifica Soares na citada obra. Compareceram 27 delegados vindos de Lisboa, Porto e Coimbra e representantes dos núcleos da ASP no estrangeiro. A propósito das precauções para ludibriar a PIDE, Soares conta uma petite histoire das muitas que vivificam a Política e condicionam a História. Os portugueses recomendaram aos alemães que os bilhetes para Bona previssem diferentes escalas, uns em Londres, outros em Paris ou Frankfurt, o que foi feito, mas… Nestas coisas há sempre um “mas” que pode deitar tudo a perder. Os alemães entregaram a emissão dos bilhetes a uma agência portuguesa com ligações à Alemanha. Escreve Soares que o funcionário da agência comentou com um dos últimos a levantar o bilhete: “É interessante, há um grupo de portugueses que vão para Bona, mas em trânsito passam por diferentes aeroportos”. Comentário seguido de um piscar de olho cúmplice, pelo que a PIDE “não soube de nada”. Se o funcionário fosse informador da PIDE, este episódio podia ter alterado o curso da história do PS e da democracia portuguesa. Como escreveu o poeta, “foram dias foram anos a esperar por um só dia”, vidas interrompidas, sofridas, de encontros e despedidas, em que se correram muitos riscos e sofreram muitos danos e derrotas, mas também vitórias que conduziram a esse memorável dia 25 de Abril.

Parabéns ao secretário-geral António Costa e a todos os líderes do PS que, antes dele, souberam honrar o legado de Mário Soares e, ao longo de 48 anos de luta pela liberdade e pela democracia, colocaram o PS ao serviço de Portugal e dos portugueses.