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Manuel Lemos ao Política com Palavra: Assinaremos com António Costa um compromisso para o futuro


Manuel Lemos foi um dos protagonistas do combate contra a pandemia. Presidente da União das Misericórdias assumiu em Política com Palavra a assinatura em breve de um pacto com o governo para os próximos vinte anos. Antigo deputado do PSD e chefe de gabinete de Leonor Beleza na sua passagem pelo Ministério da Saúde, contou da sua esperança no futuro, fez o balanço do que aconteceu no último ano e meio e cometeu uma inconfidência que lhe devolveu a esperança.

Luís Osório – A pandemia trouxe-nos a inevitabilidade de todos os dias serem imprevisíveis. As instituições sociais estavam preparadas, nomeadamente a União das Misericórdias?

Manuel Lemos – Não estávamos preparados, como poderíamos estar preparados? Uma coisa desta envergadura seria apenas própria de um filme de ficção científica ou de mentes perversas. Mas fomos capazes de agir rapidamente. As pessoas mobilizaram-se, as instituições mobilizaram-se, a articulação com o governo correu muito bem. Tudo isso funcionou rapidamente. E aprendemos todos os dias mais um pouco: tira e põe a máscara, os enfermeiros vão-se embora dos lares, depois os médicos, a decisão sobre o que fazer aos doentes. Foram momentos muito complicados.

LO – Imagino que os dias mais complicados para si tenham sido aqueles em que tanta gente foi infetada e morreu nos lares.

ML – Foram sem dúvida. Pensei no que estaria a passar pela cabeça das pessoas nos lares. Li sobre a pneumónica, tentei compreender. Não existia medicamentos ou vacina. Comecei a ver as imagens em Espanha e Itália, imagens de lares inteiros em que os cuidadores tinham todos fugido e deixado pessoas mortas ou a morrer. Pensei, será que vamos ter isto em Portugal?

Foto: José António Rodrigues

LO – Quando percebeu que pelo menos essa tragédia não iria acontecer em Portugal?

ML – Quando numa IPSS em Vila Real os cuidadores abriram as janelas e gritaram “ajudem-nos”. Podiam ter feito como os espanhóis, franceses e italianos…

LO – É um traço distintivo de ser português?

ML – É o traço português da capilaridade. Quem está nas instituições? São os pais, é o tio e a tia, o padrinho, o padre, o professor. É isso que nos distingue, uma noção de lar no sentido global da palavra “casa” que funcionou ali de uma maneira extraordinária. Os colaboradores muitas vezes deixaram as suas famílias, funcionaram em espelho para estar nos lares. Isso evitou que a tragédia fosse maior. Tirando a Islândia, e ao contrário do que se disse, tivemos o melhor resultado na Europa. Há outros países que estão mais bem organizados? Diríamos isso, mas os números não o provam.

LO – Ainda não estamos no ponto de fazer um balanço, há pessoas a morrer todos os dias. Mas há coisas que podemos já afirmar serem positivas, a perceção de que vale a pena investir num SNS, por exemplo. Pode ter sido uma boa notícia a consciência sobre os nossos mais velhos e mais pobres?

ML – Foi muito importante e é importante não deixar esmorecer. A conferência de maio no quadro da presidência portuguesa sobre a importância do pilar social irá chamar a atenção outra vez sobre o problema dos idosos. Conversei muito sobre este tema com um homem que admiro muito, Vieira da Silva, e julgo que é o lado bom de uma coisa trágica. Tomarmos melhor conta dos nossos idosos, tomarmos melhor conta de quem tomou conta de nós.

LO – Os regimes em que o Estado é menos forte, os países com líderes autocráticos foram os que tiveram mais dificuldade na gestão da pandemia. É justo tirar esta conclusão?

Foto: José António Rodrigues

ML – É justo tirar essa conclusão. Pareceria ao contrário, um regime autocrático poderia dispor das pessoas e condicionar as liberdades para atacar o problema, mas não foi isso que aconteceu. Nós europeus temos apesar de tudo dado um sinal de uma liderança que em alguns aspetos nos salvou de um desastre maior. Estou particularmente à vontade, fui deputado do PSD e chefe de gabinete da Dra. Leonor Beleza, para dizer que encontrei em António Costa um parceiro sensacional para falar sobre todas estas matérias.

LO – Teve vários conflitos com o poder político. Conflitos que foram atenuados nos últimos dois anos. Pela necessidade de unir esforços por causa da pandemia?

ML – Foram várias as circunstâncias. Conhecia António Costa de outras vidas, conheci-o e com ele colaborei quando foi presidente da Câmara de Lisboa. Pediu-me para que algumas misericórdias pudessem abrir umas creches, mobilizámos misericórdias e IPSS. Voltámos a encontrar-nos agora. A minha relação com o primeiro-ministro foi fundamental para colocar questões que não se trazem para a discussão pública, o problema das comparticipações, o modo de ajudar os idosos.

LO – Os tais momentos de tensão.

ML – Os tais momentos de tensão. Acho que deitar o dinheiro para cima dos problemas não resolve o essencial, o tema passa por investir nas prioridades certas. Sabe o que é um lar? É quase um albergue. Está lá o demente, está lá o cidadão que não tem retaguarda, o casal que achou que depois de financiar o filho decide que não deseja dar trabalho a ninguém, gente com doenças crónicas. Um melting pot que varia de região para região. É preciso olhar para isto e percebermos que temos de usar os meios para assegurar a dignidade e cidadania destes idosos.

LO – Muito mais pessoas procuraram a ajuda das misericórdias. Do que estamos a falar quando falamos de crescimento?

ML – Um tsunami social. Cerca de 23% de portugueses têm mais de 65 anos, estamos a falar de 2 milhões e 300 mil pessoas. Vamos ter mais idosos e mais idosos dependentes. Em 2050, cerca de metade dos portugueses terá mais de 65 anos. Para Portugal dobrar a população precisamos de 232 anos. Para dobrar as pessoas com mais de 65 anos serão necessários 32 anos. E para dobrar as pessoas com mais de 75 anos serão precisos apenas 12 anos! E é aí que se começa a colocar o problema da dependência.

LO – Como seguiu esta polémica que envolveu o Presidente, o governo e o parlamento em relação aos apoios sociais. O governo, o que não deixa de ser irónico, foi acusado de ser força de bloqueio de apoios sociais

Foto: José António Rodrigues

ML – Quem está no terreno sabe que não é nada disso. Sobre o que me move, o quadro do pacto de ação para a solidariedade, interessa-me olhar para os recursos que são afetos para a proteção social. Nesse domínio temos de nos sentar e encontrar novas soluções. A lei não exige médicos nos lares. Por exemplo.

LO – A pandemia trouxe-nos o conhecimento dessa realidade.

ML – Foi uma lei feita há dez anos. Um enfermeiro por cada 40 utentes, está na lei. Foi também evidente a falta de psicólogos. Quanto é que isso se traduz em custos? Estamos a fazer um trabalho na União das Misericórdias e não divulgaremos antes de o mostrar à ministra, por uma questão de lealdade e pelo modo como tem trabalhado connosco, no mínimo ela merece isso. Será a nossa contribuição para o que chamamos “o lar do futuro”. Já o estávamos a fazer antes da pandemia, mas tivemos agora de acelerar.

LO – Gostava de terminar este seu mandato com a assinatura de um pacto com o governo que assegurasse melhoria de condições para os próximos 20 anos?

LO – Há 25 anos o então Presidente da União das Misericórdias, Vítor Melícias, com o anterior presidente das IPSS e das Mutualidades, celebraram com o Estado o pacto de cooperação para a solidariedade. O primeiro-ministro chamava-se António Guterres. Foi um pacto que tem servido como a nossa magna carta. Há condições para uma revisitação?

ML – Em setembro de 2020, o primeiro-ministro disse que queria falar comigo e com Lino Maia, presidente da CNIS. Aproveitei uma viagem de carro de Fátima até Lisboa para pensar que seria interessante propor ao primeiro-ministro a revisitação desse pacto. Lino Maia achou boa a ideia e sem pensar muito propus nessa reunião e António Costa agarrou a ideia com ambas as mãos.

LO – É uma notícia.

ML – É uma notícia. Temos estado a trabalhar. No próximo dia 20 esperamos que possa ser apresentado.

LO – É certo o acordo?

– Estamos separados apenas por três pequenos pontinhos. Estamos muito perto de chegar lá. Vamos revisitar o pacto e assinaremos um compromisso para o futuro. Julgo que António Guterres gostará de estar presente.

LO – Que balanço faz sobre o processo de vacinação em relação à sua área?

ML – Nos últimos 15 dias não tivemos nenhum óbito em qualquer uma das nossas 400 misericórdias. De março a dezembro de 2020 tivemos 480 óbitos, o que numa população de 37 mil pessoas corresponde a 3,5 %. Mas em janeiro e fevereiro de 2021 tivemos 1200 óbitos. Isto não acabou porque em janeiro e fevereiro já estávamos mais preparados, mas a violência do vírus foi mais forte do que o nosso melhor conhecimento. Quanto à vacinação foi uma corajosa decisão do governo ter começado a vacinar os mais velhos.

LO – Quer deixar alguma mensagem aos seus provedores e às equipas que têm trabalhado em condições tão imprevisíveis?

ML – Eles foram os grandes heróis do quotidiano. Foram capazes de numa situação difícil fazer face ao que todos os dias era imprevisível. Fizeram tudo. Consagraram-se a salvar os seus. Comovo-me com isso. As equipas das misericórdias estavam alocadas aos seus lugares e por isso cada uma delas lutou pelas pessoas que conhecia, pela família, pelos amigos, pelo professor. Não morriam dez pessoas, morriam o Zé e a Maria. Morriam as suas pessoas.

LO – Qual foi o seu dia mais difícil entre todos estes dias horríveis.

ML – Conto-lhe uma inconfidência. Num dia que estava bastante chateado com a falta de coordenação entre o Ministério da Saúde e a Segurança Social, multiplicavam-se os pedidos para que partisse a loiça toda. Mas eu sabia que se partisse a loiça não salvava nenhuma vida com isso. Telefonei às dez da noite para um cidadão chamado António Costa. Ele não me atendeu, mas devolveu a chamada cinco minutos depois. Não foi uma conversa simples, mas foi de igual para igual. A certa altura perguntou-me o que achava se o governo considerasse a hipótese de nomear coordenadores para cada zona. Acho fantástico, respondi. Então daqui a bocadinho liga-lhe o Duarte Cordeiro. Passados cinco minutos ligou-me o Dr. Duarte Cordeiro. Foi aí que pensei que poderíamos virar a situação a nosso favor. Prefiro comentar os homens a comentar os políticos. Peço desculpa ao Dr. António Costa pela inconfidência.

LO – Este será mesmo o seu último mandato?

ML – Será mesmo o meu último mandato.  Temos de dar lugar aos outros. O movimento das misericórdias está consolidado. Vivemos no presente e no futuro.

LO – Um último mandato, mas com um pacto assinado.

ML – Vamos lá chegar, não temos dúvidas.