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O amigo Jorge – Opinião Edite Estrela


A inesperada notícia da morte de Jorge Coelho deixou o PS em estado de choque e comoveu a sociedade portuguesa. Ninguém estava à espera de uma notícia assim. Ninguém está preparado para a perda definitiva. Perder um amigo, é como perder uma parte de nós.

Escrever sobre o Jorge… Por que palavra começar? Parece inevitável começar por Amizade já que, no rico dicionário da vida do Jorge, esta palavra se destaca das demais. Outras há que se impõem igualmente: família, liberdade, política, solidariedade… Família, a sua respiração. Liberdade, o seu modo de ser. Política, a sua responsabilidade cívica. Solidariedade, sempre, a rimar com amizade.

Jorge Coelho era uma pessoa extraordinária. Indivíduos somos todos, mas não pessoas, porque “o que nos faz pessoas é aquilo que não cabe no BI. O que nos faz pessoas é o modo como pensamos, como sonhamos, como somos outros”, afirma Mia Couto. Cada um de nós é aquilo que faz e deixa fazer, aquilo que diz e que os outros dizem e recordam de nós. Somos moldados pela educação que recebemos, pelo tempo em que vivemos, pelas pessoas que connosco se cruzaram, pelas oportunidades que tivemos e soubemos aproveitar. Somos nós e as nossas circunstâncias, como defende Ortega y Gasset.

O Jorge viveu (como é doloroso este pretérito!) a vida intensamente. Teve uma atividade profissional diversificada, um invejável percurso político, desempenhou os mais relevantes cargos públicos, mas no que foi deveras singular foi na amizade. Ninguém como ele a soube exercer. Por onde passava, fazia amigos. Tinha muitos e bons em todos os quadrantes políticos. No PS, claro, o seu partido que, como poucos, sabia unir e empolgar com os seus discursos mobilizadores. Mas também nos outros partidos políticos, como ficou provado nos sentidos testemunhos de pesar. Ninguém lhe regateou as muitas qualidades políticas e humanas: inteligência, argúcia política, competência, capacidade organizativa e de trabalho, força anímica, alegria de viver, sagacidade, sentido de responsabilidade, como ficou demonstrado no memorável episódio da queda da ponte de Entre-os-Rios, não deixando “a culpa morrer solteira”. Mas a sua marca mais distintiva era a sua genuína capacidade de dar atenção aos outros, de estar próximo e dizer presente, sem regatear tempo nem esforços.

Era um excelente conversador. Com muito humor, animava o serão entre amigos, contando episódios do quotidiano e da vida política, vivências pessoais e histórias hilariantes. E o tempo fluía sem darmos por isso!

Conheci o Jorge há quase quatro décadas. Parafraseando O’Neill, poderia dizer que «mal nos conhecemos/inaugurámos a palavra ‘amigo’». Quatro décadas de amizade, partilha e cumplicidade de que guardo as mais gratas recordações. Fica-nos o legado e a memória de um político com visão estratégica, de um amigo afetuoso, de um homem homem. Não apenas à família e ao PS, também a mim e aos inúmeros amigos, o Jorge deixa um enorme vazio e uma imensa saudade.

À Cecília, a companheira da vida, à João, a filha muito querida, e à Teresinha, a irmã sempre presente, um imenso abraço amigo.