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O cabo das tormentas – opinião Edite Estrela


O topónimo Cabo Delgado anda nas bocas do mundo pelas piores razões. Terrorismo, barbárie, milhares de mortos, centenas de milhares de deslocados, violações, fome, uma tragédia humanitária!

Quando, em 2017, começaram os atos de violência no nordeste de Moçambique, na província de Cabo Delgado, perpetrados por jihadistas com ligações ao Daesh (recuso apelidar de “estado islâmico” um grupo terrorista), a comunidade internacional e as próprias autoridades moçambicanas desvalorizaram a gravidade e a dimensão do problema. Moçambique fica no “distante” continente africano e a distância entre Cabo Delgado e Maputo equivale à distância entre Lisboa e Londres (cerca de dois mil quilómetros). Aprendemos com Eça de Queirós a lei das emoções: “ a distância atua sobre a emoção exatamente como atua sobre o som”. A devastação da guerra num país longínquo não provoca insónias a quem não ouvir o troar das armas e os gritos das vítimas. Mas um tiro no bairro atemoriza os seus moradores e bairros vizinhos. Talvez por não terem ouvido os apelos das vítimas, niguém ficou preocupado. E se tivessem ouvido os alertas de quem estava no terreno, como por exemplo do bispo de Pemba, seria diferente? Terá razão Lourenço do Rosário, presidente do Fórum Nacional do Mecanismo Africano de Revisão de Pares, citado pelo DN, quando afirma que a “necessidade de concessão de terras às grandes companhias de exploração de gás e petróleo provocou um conflito no processo de reassentimento das populações”? Não tenho resposta. Só perplexidades. Como é que não foram capazes de prever que, à semelhança do que aconteceu no Iraque e na Síria, por exemplo, a situação tenderia a descontrolar-se? Quem é que ainda não sabe que o objetivo dos terroristas é, por definição, provocar o terror sem limites e sem olhar a quem? Quanto maior for a devastação, o número de vítimas e o caos, mais eles se vangloriam dos seus feitos.

As imagens das atrocidades cometidas pelos insurgentes sobre os moradores de Palma, no passado dia 29, chocaram quem as viu e interpelam os defensores dos direitos humanos. Segundo dados da ONG Save The Children, os ataques em Cabo Delgado já provocaram a deslocação de mais de 700 mil pessoas rumo à província de Pemba, 300 mil das quais são crianças. As notícias da decapitação de civis desarmados, da violação de mulheres, da fuga para o mato de milhares de pessoas sem mais nada que a roupa do corpo, de famílias inteiras com crianças caminhando durante dias sem água nem comida, não deixam ninguém indiferente. Mas não bastam palavras de condenação e lamento, é preciso ação imediata. Em várias frentes. E atendendo não apenas às consequências, mas também às causas.

Edite Estrela