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Confinar ou desconfinar, eis a questão – Opinião Edite Estrela


Há dois assuntos recorrentes na atual agenda política e mediática: desconfinamento e vacinação. Não há ator político, comentador, escriba ou palrador que não opine sobre a matéria, não se coibindo de dizer uma coisa e o seu contrário, com a mesma insustentável leveza com que não distingue o verdadeiro do falso. Os noticiários televisivos e radiofónicos apresentam e declinam os temas nas suas diversas flexões, dando eco ao devido e ao indevido. Nas redes sociais, manifesta-se o habitual entusiasmo a favor e contra.

Estamos confinados? Queremos desconfinar. Quando estávamos desconfinados, quisemos confinar? É verdade, mas isso agora não interessa nada. É da natureza humana cobiçar o que os outros têm. Quem não tem nada, aspira à satisfação das necessidades básicas. Quem tem alguma coisa, anseia reforçar o que possui. Quem tem muito, deseja mais e melhor. A insatisfação é própria do ser humano. A tentação também. Bem dizia Oscar Wilde, entendido no assunto, “posso resistir a tudo, menos à tentação”.

Faz hoje um ano que apareceu em Portugal o primeiro infetado com o coronavírus, marcando um ano que virou as nossas vidas do avesso. E, um ano depois, não nos libertámos do “bicho” que parou o mundo nem do medo dele. O vírus mudou e cada mutação parece pior que a anterior. As novas estirpes, independentemente da sua proveniência, sendo mais contagiosas (e sabe-se lá mais o quê), não nos permitem baixar a guarda, não obstante a esperança que a vacina representa. Confinar ou desconfinar, muito ou pouco, quando e como, são questões pertinentes para a generalidade dos países europeus. Se a Alemanha já começou a desconfinar e a Dinamarca se prepara para ir no mesmo sentido, a França e a Suécia vão em sentido oposto, admitindo adotar mais restrições para travar o contágio. As dúvidas sobre o tempo e o modo do desconfinamento são legítimas e prudentes. O vírus não para de nos surpreender e desafiar.

Os dados objetivos e os pareceres dos cientistas são determinantes para os governantes decidirem em cada momento qual deve ser a prioridade no difícil exercício de equilibrar a tríade saúde, economia, ensino. Sabendo de antemão que, qualquer que seja a decisão, erguer-se-ão as vozes contra do costume. Alguns, nem olham a meios, como aquele colunista do Observador que lançou nas redes sociais um falso plano de desconfinamento. Um crime que não pode ficar sem punição.

Os recentes números da pandemia são animadores e provam que, quando queremos, conseguimos dobrar o cabo das tormentas. Há duas semanas, éramos os piores da Europa em número de infeções, neste momento já melhorámos vinte posições. E estamos bem classificados no ranking da vacinação e da testagem. Mas, comparativamente com o que se passava em maio, mês do primeiro desconfinamento, ainda temos de fazer mais um esforço para não corrermos riscos inúteis. A fadiga pandémica cresce, estamos todos fartos do confinamento, da incerteza do momento, da vida suspensa. Dizem os especialistas que o confinamento nos afeta mais do que agora imaginamos. Precisamos todos de sair e confraternizar e as nossas crianças e jovens precisam de ir para a escola, praticar desporto e conviver. Setores como a Cultura, o Comércio e o Turismo estão em situação de progressiva agonia. O confinamento provoca ansiedade e medo, aumenta a violência doméstica, gera mal-estar físico e mental. Não é bom para ninguém, mas é uma necessidade. Se puder, por enquanto, fique em casa. Os nossos incansáveis profissionais do setor da Saúde agradecem.

Edite Estrela