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Opinião Edite Estrela: Não digam que não avisei


No meio de uma crise pandémica, económica e social, em que é preciso salvar vidas, recuperar a economia e o emprego e cuidar dos que mais precisam, é natural que a qualidade da democracia não seja, para muitos, uma prioridade. É natural, mas é um erro. A democracia não pode ser suspensa nem descurada. A democracia é uma planta frágil que tem de ser diariamente cuidada para nos fornecer o ar que respiramos. E, se for maltratada, tudo o mais se ressentirá.

No dia 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu incrédulo ao ataque terrorista às Torres Gémeas em Nova Iorque. As imagens chocantes foram vistas em direto e em diferido por milhões de pessoas de todos os continentes. Ninguém ficou indiferente ao sofrimento do povo americano. “Como foi possível?”, foi a pergunta que mais se ouviu repetida em muitas línguas. Era difícil acreditar que o país da CIA e do FBI e que mais investe em defesa pudesse revelar uma tal vulnerabilidade. Muitos de nós receámos que esse atentado fosse o prenúncio de uma era de terrorismo e de medo. Nesse dia, fomos todos americanos a chorar os mortos, a lamentar a ferida no corpo da cidade e a condenar os terroristas. Decorridos vinte anos, as sequelas permanecem. As visíveis e as sentidas.

No dia 6 de janeiro, o mundo assistiu estupefacto a um assalto à casa da democracia americana, perpetrado por um bando de insurretos instigados pelo Presidente cessante: Donald Trump. Tal como há vinte anos, as imagens correram mundo e repetiu-se a inevitável pergunta: “Como é possível?”. É possível porque as instituições democráticas de uma democracia consolidada demoraram a ler os sintomas “ditatoriais” de um presidente com demasiado poder. É possível porque muitos toleraram os desmandos antidemocráticos de um presidente que se julgava acima da lei. É possível porque a tolerância democrática desvalorizou as manifestações de demagogia e populismo, a mentira sistemática e os atentados ao Estado de direito de um presidente impreparado para a função, mas bem preparado para usar com eficácia e proveito as redes sociais e hábil na manipulação.

O assalto ao Capitólio interpela-nos e obriga-nos à reflexão. A primeira lição a tirar é que a democracia tem de ser permanentemente defendida e que devemos ter tolerância zero em relação à xenofobia e ao populismo, ao discurso do ódio e aos sinais de desrespeito pelas leis e pela democracia.

A história não se repete, mas recomenda-nos prudente vigilância. É oportuno lembrar que foi com um ataque a uma casa da democracia que o nazismo começou. O incêndio ao Reichstag, em 1933, queimou a democracia e permitiu a Hitler consolidar o seu poder.

Também por cá surgem preocupantes sinais de desvalorização da Constituição da República e de atentados ao Estado de direito. Também por cá se ouvem incitamentos ao ódio a “eles” que são diferentes na pele, na origem, na etnia, na orientação sexual. Também por cá se tolera a desinformação e o ataque às instituições, mesmo no debate político e no espaço mediático. Também por cá se desvalorizam as ideias e o programa de André Ventura e do Chega.

Deixo-lhes as palavras de Benjamim Ferencz, procurador do julgamento de Nuremberga ainda vivo e que comparou o pensar de Trump ao de Hitler:” Tudo o que é preciso para que o mal vença é que as pessoas boas não façam nada”.

Depois não digam que não avisei.