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Qual o valor da decência?


No mesmo dia em que o mundo democrático festejava a vitória da democracia e do estado de direito nos Estados Unidos, em Portugal, o PSD firmava um acordo parlamentar com um partido de extrema-direita para governar a Região Autónoma dos Açores.

O mundo tem razões para festejar a vitória de Biden, porque ela representa a vitória da democracia sobre a xenofobia, da tolerância sobre a violência, da moderação sobre o radicalismo, da decência sobre o populismo. E representa a derrota da extrema-direita na América e na Europa.

A eleição presidencial nos Estados Unidos, pela sua importância e simbolismo, não deixou ninguém indiferente. Não por acaso, esta foi a eleição presidencial que mais mobilizou os eleitores e que foi acompanhada com inusitado interesse em todos os continentes. “Esta noite, todo o mundo está de olhos postos na América e acredito que, no nosso melhor, a América é um farol para o mundo. Lideraremos não apenas pelo exemplo do nosso poder, mas pelo poder de nosso exemplo”, afirmou Kamala Harris, a primeira mulher (e afro-asiática) a chegar à vice-presidência dos EUA.

O “poder do exemplo” que o PSD desbaratou nesse mesmo dia, ultrapassando a linha vermelha da decência política. O que leva um partido democrático a dar a mão à extrema-direita, fazendo o que todos os partidos democráticos europeus, incluindo os da sua família política, já recusaram fazer, mesmo quando isso implicou dissensão interna e perda de poder? O que leva o maior partido da oposição a escolher para “muleta” parlamentar um partido xenófobo, racista e misógino?

O que leva Rui Rio, um democrata e defensor dos direitos, liberdades e garantias consagrados na Constituição, a sentar-se à mesa da negociação política com André Ventura que não respeita o regime democrático e o estado de direito?

Não estranho o que o líder do PSD escreveu no Twitter. Compreendo que se sinta incomodado na companhia de quem “quer fazer uma rutura com a Constituição” e nela inscrever a prisão perpétua e a castração física e química de condenados por crimes de abuso sexual de menores, propostas “repugnantes”, nas palavras de um constitucionalista e ex-deputado do PSD. Compreende-se o embaraço, pois lá diz o ditado: “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Rui Rio certamente conhece, como eu, muitos outros aforismos aplicáveis ao caso e que não o deixam ficar nada bem na galeria dos democratas portugueses.

O presidente do PSD não pode sacudir a água do capote, pois foi afirmado que o PSD regional tinha autonomia para se entender com CDS e PPM, mas não com o Chega, pois esta negociação decorria “em Lisboa”. E a acreditar nas afirmações do recém-eleito Carlos Furtado, a negociação entre os líderes nacionais terá sido “séria e cordial” e levará ao corte do rendimento social de inserção nos Açores. Ou seja, os mais desfavorecidos vão ficar ainda mais desprotegidos em resultado desta parceria entre o PSD e o Chega.

Não se questiona a solução governativa com base numa maioria parlamentar não decorrente diretamente do ato eleitoral. Mas não serve de desculpa comparar o incomparável. Comparar o que se passa nos Açores com a “geringonça” é insultuoso para o BE, o PCP e o PEV. Como é que Rui Rio não percebe a diferença?! É tão evidente que nem carece de explicações. O Chega é um partido da extrema-direita, está tudo dito.

Como o acordo parece ser secreto e André Ventura já avisou que “o Chega não pode ser o diabo nacional, e valer nos Açores”, Rui Rio deve explicar ao país o conteúdo do acordo e se ele representa um balão de ensaio para ser replicado a nível nacional. Os portugueses têm o direito de saber em troco de quê o PSD abriu a porta ao Chega, um partido que, pela palavra e pela ação, diariamente põe em causa a Democracia. Como sói dizer-se, em política não vale tudo, não é Dr. Rui Rio?