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Opinião: Um País Sábio


A resiliência do nosso sistema partidário continua a ser uma boa notícia, contrastando vivamente com o que se passa lá fora. Na verdade, temos todos os partidos de que necessitamos representados no parlamento e até, luxuosamente, alguns de que não precisamos. Estes últimos, no entanto, não só não comprometem a governabilidade do país como vivem em bicos de pés, na expectativa ansiosa de concorrer para ela. Que a extrema-esquerda represente 20% do eleitorado, matraqueando ideologias mortas, é uma originalidade portuguesa indissociável do nosso atraso, filha dele e que dele se alimenta, fenómeno que nasceu com os “irracionais” do liberalismo oitocentista e que tem assumido variadas feições que são, invariavelmente, expressão da nossa justificada exasperação coletiva.

Na Europa, a extrema-esquerda quando se aproxima da esfera do poder converte-se à social-democracia, como notoriamente aconteceu com o Syriza (entretanto repudiado pelo BE); no terceiro mundo o apelo da social-democracia é mais fraco e a coisa desemboca no chavismo ou numa sua variante, mais ou menos trágica. O PCP é a reminiscência nacional de uma ideia que, antes de ruir com estrondo, conquistou metade do planeta no século passado e que quase se impôs à outra metade. Joga, lealmente, o jogo democrático desde 1976 e a sua luta contra o tempo e o seu inexorável destino convoca, até, certo respeito.

Em Portugal, o BE continua a funcionar, fundamentalmente, como um barómetro da força do PS e nenhum mal vem ao mundo que o PS viva com uma certa pressão à sua esquerda, vinda do BE ou do PCP, tanto faz. A menos que uma catástrofe se abata sobre o PS, o BE nunca verá realizado o seu sonho de o substituir como o grande partido polarizador da esquerda porque, à semelhança do CDS, o BE não é um partido popular e o PS é um grande partido popular, profundamente enraizado na sociedade e no território. É provável que o núcleo duro filocomunista do Bloco nutra mesmo certa aversão pelo “povo socialista”, gente desconfiada, popular e refratária aos encantos do populismo de esquerda.

Em tempos pós-modernos a atitude, que secundariza a mensagem, do BE tem tudo a ganhar e a mensagem pobre de atitude e pose do PCP tem pouco a seu favor. De nada serviu a João Ferreira ser mais racional e articulado que Marisa Matias na exposição das suas teses. O facto de os candidatos comunistas terem sempre que atuar sem perder de vista os órgãos internos do partido, um areópago de estalinistas endurecidos, obriga à regular inserção da cassete oficial, cuja regurgitação tem o condão de nos despertar para as asperezas do dogma, como o euro ser mau e a Coreia do Norte muito boa.

A direita partidária lida com um eleitorado que tem uma inclinação natural para preferir a situação ao desconhecido. E a situação consiste num governo de contas certas e equilíbrio orçamental que, durante pelo menos três anos, neutralizou politicamente a esquerda radical. Acresce que não conseguiu apresentar duas ou três razões (que imediatamente ocorram ao espírito) para mobilizar o seu eleitorado. Como se costuma dizer, não tinha bandeiras. Pagou por isso, muito merecidamente.

Um partido animalista, centrado no bem-estar dos cães e gatos domésticos, na tranquilidade das matilhas selvagens e nos níveis de bem-estar dos canis municipais, que proclama não ser de direita nem de esquerda (talvez por mimetismo do mundo animal), meteu um deputado. A ausência histórica de um partido ecologista gerou um vazio, que vai ser preenchido por outro vazio, o PAN. Este vazio, enigmaticamente proclamado com muita honra, falará com todos, não estorvado por considerações humanas alheias ao reino animal. Ou talvez não. Talvez seja apenas um PEV, à procura do seu PCP.