Opinião: Franciscus


(Artigo de opinião escrito originalmente para o Jornal Económico)

Ascenso Simões

Rendimento das famílias não é só impostos, salários e pensões

Ser pop star não habilita à liderança de uma multinacional com mais de mil milhões de consumidores diretos e outros tantos atentos à oferta dos bens e serviços que ela dispõe. Credencia ainda menos quando esses bens são intangíveis, na maior parte do tempo desnecessários à vida do dia a dia.

Esta é a realidade da Igreja Católica de hoje, com uma liderança que não entende o negócio, não sabe onde estão as fraquezas das linhas de produção e distribuição e, mesmo tendo um bom “vendedor”, o produto acaba por ser esquecido nas despensas domésticas das nossas urgências.

Na Igreja não há conservadores e renovadores. Há só conservadores. Porque é assim por natureza, porque o vantajoso do que é escrito e dito está no facto de ser permanente, imutável, previsível.

Quando D. António Marto diz que Francisco está a ser atacado pelos ultraconservadores, parece demonstrar desconhecimento dos quase dois mil anos de presença, a história que fez da proclamação do bem intemporal uma presença avassaladora no temporal.

Francisco não está a fazer qualquer revolução na Igreja. Mais, ele não sabe o que fazer com ela na perspetiva de a consagrar una e perene, de lhe conceder alma para os tempos quentes que este milénio lhe apresentará. O Papa está a fazer mudanças incrementais no caixa, no património, em algumas NEP, mas tudo isso não chega para um magistério.

A grave questão dos crimes contra menores serve, neste momento, para acertar contas com hipocrisia. Porque não há prelado da Igreja que os não saiba, que neles não tenha vivido direta ou indiretamente, afirmando-se falsos os que afirmam o seu desconhecimento. Todos são responsáveis há décadas e todos são culpados por tão tardiamente se terem sabido.

Em boa verdade, o que querem os adversários temporais do Papa é que ele resigne para tentarem reganhar o poder vaticanista e a influência nas congregações. Problema grande é que Francisco tem contra ele os mais respeitados pensadores da Igreja, e estes têm razão quando dizem que o jesuíta argentino não tem dimensão teológica para ser Papa.

Todas as teorizações feitas por Francisco ficam a anos luz das de Bento XVI, são ausentes de uma resposta para o tempo de hoje reinventando os evangelhos. Mais, quando Francisco afirma que a linguagem marxista é próxima da linguagem de Cristo (e estes os de Marx dele se aproveitam por ausência dos católicos que o defendam), o que ele está a fazer não é só atentar contra a alma da Igreja do último século, mas, também, a reavivar uma ideologia quase morta pela exigência dos tempos de hoje.

O que deve fazer um católico perante tamanha desconsideração da estrutura da Igreja nos milhões de fiéis? Segurar-se no conhecimento de Cristo pelos Evangelhos e interpretar os seus ensinamentos perante os desafios do nosso tempo.

Aos católicos não se pede que sigam os pecadores que são padres, aos católicos pede-se que sigam a Palavra, que a vivam e que a transmitam. Em boa verdade, a Igreja só resistirá pela ação dos fiéis, porque são eles que garantirão Cristo vivo.

Ficará a Igreja reduzida em dimensão e poder? Não há resposta por agora. Mas é mais relevante uma Igreja que toque os pecadores e lhes dê o pão e o vinho de que necessitam, do que um Estado romano de faixa preta, violácea, vermelha ou branca.