Chegará o tempo


(Artigo de opinião escrito para o Jornal de Notícias)

Depois das eleições autárquicas, cuja campanha naturalmente reforça a componente confrontacional que faz parte da vida política, chegará o tempo de se colocar uma pergunta que não pode deixar de inquietar os democratas portugueses, perante o que se tem visto nas últimas semanas: será que o atual PSD, de Pedro Passos Coelho, ainda se pode considerar um partido de regime ou perdeu todo o seu poder de regeneração, “isto é a sua capacidade para corrigir desequilíbrios acumulados no passado e para formular estratégias que sejam consistentes com o seu específico campo de possibilidades depois das consequências desses desequilíbrios” (na terminologia usada por Joaquim Aguiar em 2016, num artigo sobre Crise de regime e sistema de Governo e que bem pode ser adaptada a este caso)?

A verdade é que as últimas semanas aumentaram as preocupações sobre esta matéria. O episódio com o seu candidato à Câmara de Loures (onde até do seu parceiro CDS-PP o PSD recebeu uma lição de como lidar com o assunto…) ou as lamentáveis, descabidas e (não há como não dizer…) xenófobas declarações de Passos Coelho no comício do Pontal, que puseram o seu partido para lá das fronteiras da decência, quebrando o tradicional consenso partidário sobre estes temas que se tem observado na nossa democracia, são sinais inquietantes.

Acresce a reação destemperada que o PSD teve, através do seu novo líder parlamentar, à entrevista do primeiro-ministro António Costa ao “Expresso”, em que este propôs a consensualização em torno das grandes opções para o período pós 2020 (como, aliás, já constava do programa eleitoral do Partido Socialista nas legislativas para as grandes obras públicas), e que terão de ser negociadas na UE.

Tudo sinais de um partido incomodado consigo próprio, ressabiado com o país e com a situação política, incapaz de se regenerar e voltar a assumir a sua condição de partido de Governo e de verdadeira alternativa política, procurando nas margens e num certo “trumpismo” de ocasião uma espécie de fuga para a frente.

Não, este não é um PSD que faça jus à história do PPD/PSD, nem é o partido que a democracia portuguesa merece e precisa. Como democrata, mas também como socialista, não posso deixar de formular o voto para que no dia 2 de outubro o PPD-PSD desperte de novo como um partido de regime, depois deste já longo intervalo, marcado pelo ressabiamento e por tentações extremistas em que, certamente, a esmagadora maioria dos portugueses não se pode reconhecer. A democracia portuguesa precisa desse contributo.