Opinião: A confiança nas instituições


(Artigo de opinião publicado no Jornal de Notícias)

  1. Os portugueses precisam de confiar nas suas instituições – muito em particular naquelas que estão relacionadas com as funções de soberania- e isso passa por serem informados cabalmente sobre todas as situações que possam por em causa essa relação de confiança, que é básica numa Democracia. É por isso que bem tem feito o governo em divulgar publicamente os diversos relatórios que as mais diversas entidades têm produzido sobre a enorme tragédia de Pedrogão, mesmo que tenhamos assistido (espantosamente…) aos apelos da direita para que essas entidades fossem silenciadas…
  2. É preciso apurar tudo – e naturalmente até às últimas consequências – o que se passou, seja em Pedrogão e concelhos limítrofes, seja com a situação do paiol de Tancos. Mas é preciso apurar com seriedade e deixar trabalhar quem o possa fazer com rigor e independência, apresentando as conclusões no tempo adequado, que não coincide, por natureza, com o tempo do mediatismo e da demagogia.
  3. Primeiro foi o tempo de eliminar as situações de risco, que tantos custos humanos tiveram, no caso dos incêndios de Pedrogão. Concluída essa tarefa, é o tempo de reparar e reconstruir, o que felizmente já se iniciou em Pedrogão e concelhos vizinhos, e repor tanto quanto possível a normalidade na vida das pessoas afetadas. Agora será o tempo dos técnicos e especialistas estudarem em profundidade e, no tempo que acharem adequado, apresentarem as conclusões, para que o país possa estar mais preparado para o futuro.
  4. Já agora, é também preciso apurar, além do descalabro social que ficou no país como rasto da orgulhosa política da direita, da “austeridade para além da troika” (recordam-se?), que consequências é que essa política teve em matérias concretas relacionadas com as funções de soberania (por exemplo, na Segurança Interna e nas Forças Armadas).
  5. Do que Portugal menos precisa, com toda a certeza, e não apenas neste momento concreto, é de um governo estilo Lucky Luke, o célebre cowboy solitário criado pelo belga Morris e que se caraterizava por disparar mais rápido do que a própria sombra. Confesso que é essa a imagem que me ocorreu nos últimos dias ao ouvir alguns dirigentes da oposição da direita que parecem menos preocupado com o apuramento de toda a verdade sobre alguns dos recentes acontecimentos que tanto abalaram o país do que em fazer “rolar cabeças”. Pelo visto, já têm todas as conclusões, mesmo antes de os assuntos serem analisados por quem é competente para o fazer, mera formalidade ante tanta ânsia de explorar politicamente a situação, mesmo que trágica. Não, não é certamente assim, com explorações demagógicas, que se reporá a confiança dos portugueses nas suas instituições.
  6. Instituições que estão perante um desafio: estar à altura das suas responsabilidades e da confiança dos portugueses. É isso que se impõe.