“Sempre livre, como um pássaro”


Quando caiu um dos seus governos, convidado a comentar pelos jornalistas, respondeu, citando Teixeira Gomes, que se sentia “livre como um passarinho”. Nesta citação não evocava o exemplo de resignação do último Presidente da I República. Mário Soares nunca resignou nem desistiu. A imagem exprimia que antes de mais estava a Liberdade e que o poder, efémero por natureza, é só um instrumento para construir a Liberdade. Por isso foi sempre livre, no poder, contra os poderes que enfrentou, fora do poder.

Nunca existiu pelo poder, mas pela Liberdade. Foi assim que começou no combate à ditadura quando a hipótese de aceder ao poder era mais ténue do que uma miragem e que continuou toda a sua intensa atividade política nos últimos 20 anos, após o termo dos seus mandatos presidenciais.

Foi uma longa vida de combate, porque foi sempre à luta em todos os combates do seu tempo. Enfrentou a ditadura e defendeu a revolução da sua deriva totalitária, bateu-se contra o colonialismo e revoltou-se contra a conversão dos movimentos de libertação em partidos únicos, assegurou a integração europeia mas insurgiu-se contra a mercantilização da UE, criou o PS para garantir a autonomia estratégica do socialismo democrático e foi dos primeiros a abjurar a sua descaracterização pela terceira via, assumiu grandes combates globais em defesa da sustentabilidade dos oceanos e recusou a globalização desregulada como geradora de um capitalismo de casino.

Muitas vezes o criticaram pelo seu pragmatismo. Como todos os grandes navegadores, Mário Soares não esperou pelo vento de feição e bolinou para encontrar o vento necessário para seguir o seu rumo, sem nunca errar quanto aos pontos cardeais nem tergiversar quanto ao porto de destino.

Pelo contrário, foi a firmeza das convicções quanto ao que era essencial, que lhe dava força e coragem para todas as ruturas que se impunham e que lhe permitia “esquecer” agravos, criar amizade com adversários, conciliar os inconciliáveis. A criação da CEUD em 1969 foi essencial para por termo à hegemonia da esquerda portuguesa pelo frentismo do PCP. A saída do PS do IV Governo Provisório, após o caso República, foi vital para defender a Liberdade. O acordo com o PPD para a revisão constitucional de 1982 foi imprescindível para garantir a consolidação da democracia. O bloco central assegurou a integração europeia de Portugal.

Ninguém contribuiu tanto como Mário Soares para a construção do Portugal pós-25 de Abril. Muitas vezes não foi compreendido – algumas vezes não o acompanhei – mas há que reconhecer que, no essencial, era ele quem tinha razão.

Foi seguramente quem melhor interpretou o papel de Presidente no nosso sistema semipresidencialista, afirmando-se como verdadeiro “Presidente de todos os portugueses”. Mas o seu legado na chefia de três curtos governos tem sido muito subestimado. As traves mestras do nosso moderno Estado social de direito foram então lançadas. O poder local democrático, a independência do poder judicial, o SNS, a universalização da Segurança Social, a revisão do Código Civil, que revolucionou o direito de família, bem podem ombrear com a reconstrução do tecido económico pós-revolução, o clima de concórdia nacional e a integração europeia como grandes contributos dos governos de Mário Soares.

Quando há 20 anos cessou as suas funções presidenciais, Mário Soares não se retirou. De novo livre, continuou o combate que iniciara na sua juventude, que a vitalidade de espírito, inconformismo e curiosidade intelectual eternizaram. Cronista em vários órgãos de comunicação social, fundador de uma Fundação exemplar na preservação da memória da luta antifascista e anticolonialista, não deixou de concorrer ao Parlamento Europeu ou à Presidência da República, acrescentando entre as novas gerações novas amizades às muitas que acumulou ao longo da vida. Como bem se vê no longo diálogo com o Sérgio Sousa Pinto, e que publicou como Diálogo de Gerações , Mário Soares foi sempre contemporâneo do seu tempo e com notável capacidade de antecipar o tempo que vinha. Sempre livre, como um pássaro.

A idade chega a todos e a Mário Soares também. Quando o visitei após doença grave há cerca de três anos, disse-me com indisfarçada surpresa: “Sabe, eu podia ter morrido.” Percebi que tal hipótese nunca lhe tinha ocorrido e que a revelação da sua mortalidade lhe ia tirar anos de vida. Nenhum de nós então sabia que o posterior falecimento da Maria de Jesus viria ainda a tirar-lhe outros tantos.

Vi-o a primeira vez, ao longe, no dia 28 de abril de 1974, chegado do exílio e aclamado à varanda de Santa Apolónia pela multidão que o aguardava na enchente de alegria e esperança com que o 25 de Abril ocupou as ruas. A última vez que o vi foi no passado dia 23 de julho, quando nos jardins de São Bento o homenageámos por ocasião do 40.º aniversário da sua primeira posse como primeiro-ministro. Pelo caminho, tive o privilégio de o ver e ouvir muitas vezes, que agora só poderei reviver na memória.

Não há ninguém insubstituível? Sei que ninguém substitui Mário Soares no lugar que é seu na história do Portugal democrático

(in Diário de Notícias)