Opinião: A lição americana


A derrota de Hillary Clinton, candidata do Partido Democrático nas eleições presidenciais americanas, é penosa e preocupante. Mas é também uma oportunidade que os democratas não devem perder para avaliar os erros cometidos e a necessidade de mudar de rumo. De facto, o Partido Republicano não se limitou a ganhar a presidência, o que no sistema presidencialista dos EUA já significaria muito… Além do Governo, os republicanos mantiveram a maioria no Senado – que lhes garante a manutenção do controlo exclusivo do poder legislativo – e vão conquistar em breve a maioria no Supremo Tribunal Federal, porque estão agora à-vontade para nomear o juiz que muito bem lhes convier para a vaga que propositadamente deixaram em aberto, quando chumbaram o juiz proposto pelo presidente Obama. Com o poder executivo, o poder judicial e a maioria assegurada nas duas câmaras legislativas, o Partido Republicano ficou solto do engenhoso mecanismo de “checks and balances” que os pais fundadores engendraram há mais de dois séculos, para prevenir a tirania e travar as tentações de prepotência e arbitrariedade dos titulares do poder federal.

As promessas e as ameaças mais aberrantes assumidas pelo candidato eleito, durante a campanha, irão provavelmente dissipar-se em breve como etérea demagogia. Mas a verdade é que, descontados os insultos e obscenidades, nada de substancial distinguiu Donald Trump dos concorrentes republicanos que derrotou nas primárias… e é bem certo que os republicanos, a partir de janeiro, vão mandar em tudo! Esta campanha inacreditável que oscilou permanentemente entre o folhetim policial e o “reality show”, é em si mesma um sinal de alarme que se inscreve como nódoa indelével na história da democracia americana.

Pese embora a difusa perversidade destes efeitos, o triunfo de Donald Trump constituiu uma inequívoca vitória da democracia, reconhecida pela rival que o felicitou mal foi conhecido o resultado. E, em segundo lugar, é a expressão soberana de uma vontade popular que contrariou todas as sondagens e dececionou as expectativas dos que preferiram reduzir o candidato vencedor a personagem de opereta, expoente boçal de um populismo irrelevante. A direção do Partido Democrático, receosa de que o programa “radical” de Bernie Sanders, pintado como um perigoso esquerdista, provocasse o feroz desagrado dos lobos de Wall Street, tratou de afastá-lo nas eleições primárias, recorrendo para esse fim a expedientes obscuros, expressamente inventados para afastar indesejáveis. Ficaremos para sempre sem saber se o resultado eleitoral teria sido o mesmo, caso Sanders fosse o escolhido. Os lobos de Wall Street, por seu turno, não pouparão tempo nem esforços para estabelecer rapidamente as pontes mais convenientes com o novo inquilino da Casa Branca.

O “populismo” é um conceito antigo e uma qualificação pertinente que, todavia, se degradou recentemente a pouco mais do que um rótulo preguiçoso e infamante. As oligarquias tradicionais transformaram o centro-direita e o centro-esquerda em alternativas políticas despidas de sentido e para disfarçar esse vazio rotularam como “populismo”, “radicalismo” ou “extremismo” tudo o que possa ameaçar a sua sobrevivência. Uma atitude hipócrita que não tem impedido espúrias coligações de governo com organizações racistas e xenófobas, nem exclui as cedências políticas que se mostrarem mais úteis e oportunas, tornando os partidos desse “centro virtuoso” nos principais promotores do mesmo “populismo” que antes deploravam.

Depois do Brexit – que Sarah Palin, protagonista do “tea party”, comparou justamente às eleições da passada terça-feira – segue-se o referendo italiano, em dezembro, e outras eleições decisivas para os equilíbrios europeus que terão lugar em vários países no próximo ano. Não são apenas os democratas americanos quem precisa de retirar as lições devidas dos seus fracassos. Os trabalhistas, sociais-democratas e socialistas democráticos europeus também têm muito que aprender com as experiências próprias e alheias caso queiram prevenir novos desastres perante os desafios que se seguem no calendário eleitoral.

(in Jornal de Notícias)