Opinião: Uma geração de experiências


No século passado, o normal era os jovens terem projetos que iam adaptando e concretizando à medida que o ciclo da vida se desenvolvia. A aceleração da mudança quebrou a normalidade. A nova geração é uma geração de experiências.

Viver num tempo de disrupção é muito exigente, mas se os jovens de hoje de-senvolverem redes fortes, colocando em comum as suas experiências e os seus valores, poderão ser protagonistas duma transformação muito significativa do mundo em que vivem, adaptando-o às suas necessidades e tornando-o melhor.

Quando olhamos para Portugal em particular, não podemos deixar de nos preocupar com as elevadas taxas de desemprego jovem, com o desânimo e o sentido de incompreensão que muitos sentem e transmitem, ou com as baixas taxas de participação em atividades cívicas tradicionais, designadamente nas atividades políticas.

No entanto, é neste mesmo contexto que vemos florescer dinâmicas de inovação e empreendedorismo que colocam o país no mapa global e criam o contexto para que aconteçam eventos de grande prestígio como a Web Summit, que se realiza entre 7 e 10 de novembro em Lisboa.

Os desafios que se colocam à escala de cada vida em particular colocam-se também ao nível de cada território e de cada comunidade. Perante um projeto europeu estagnado e amorfo, acredito cada vez mais que parte da resposta está na rede de jovens que partilham e conjugam uma identidade local e uma identidade europeia e articulam entre si os seus projetos e os seus saberes.

A atual dinâmica demográfica e política europeia é marcada, em minha opinião, por três cortes geracionais de fronteiras naturalmente fluidas.

Os mais velhos são a geração-projeto, que ainda sentiu ou ouviu falar em direto do horror da guerra e percebe que sem paz não há projeto que seja viável.

A geração intermédia é uma geração traída que viu o seu projeto de vida, mesmo que sobrevivente, exposto a cada vez mais riscos e incertezas.

Finalmente, a geração mais nova é a geração da experiência, usada por muitos como uma fuga à realidade e por cada vez mais como a chave para a participação em redes colaborativas inovadoras e transformadoras.

O jogo da vida não é um jogo de bons e maus ou de novos e velhos. Todos somos importantes na definição de uma sociedade mas, em cada momento, alguns são chamados a fazer as roturas que permitem que todos passem a ter mais hipóteses de viver melhor.

Chegou a vez de a nova geração fazer valer as suas regras. De exigir condições de inclusão na nova sociedade que se desenvolve sobre as novas redes tecnológicas, onde se armazenam e circulam cada vez mais dados. De pugnar pela transparência e pela implosão de redes de controlo financeiro ou mediático que distorcem as condições de desenvolvimento sustentável no mundo. De construir, em vez delas, redes colaborativas focadas na realização das necessidades económicas, sociais e culturais das pessoas e na preservação do planeta.

Esta geração de experiências tem o futuro nas suas mãos.

(in Jornal I)