Opinião: Boas-novas


A escolha do prémio Nobel da Literatura de 2016 suscitou uma polémica desmesurada e irrisória. A inegável qualidade estética, a vasta influência cultural e a expressão cosmopolita da obra de Bob Dylan – além de outros autores e intérpretes da música popular contemporânea que não desmereceriam também tal distinção – são bons motivos para justificar esta opção feliz da Academia Sueca, mesmo que o galardoado continue a não dar sinal da respetiva notificação… A sua música sublinha a poderosa mensagem poética das canções em que se reconheceu – pelos anos sessenta, setenta do século passado – toda uma nova geração que não se resignava a aceitar o Mundo que lhe ofereciam como herança por se achar capaz de construir uma sociedade melhor. Da intimidade familiar à sala de aula, uma certa distância e estranheza se inscrevia nas relações entre pais e filhos, entre professores e alunos, entre a prudência suspeita de algum conformismo e a irreverência juvenil. Viviam-se tempos de acelerada mudança, no Mundo e nas mentalidades, e a resposta às dúvidas e inquietações chegavam sopradas pelo vento em versos intemporais, de aparência ingénua, cujo sentido, porém, todos sabiam muito bem interpretar: – “quantas vezes terão de voar as balas dos canhões até serem proibidas para sempre?”.

Eram tempos exaltantes que uniam o Mundo na rejeição da mentira, da hipocrisia, da brutalidade. As “letras” das canções davam corpo à denúncia concreta e rigorosa de um “desconcerto” que ecoava em discursos oficiais, movimentos espontâneos, protestos e grandiosas manifestações:

  • O discurso de Kennedy, em Berlim, contra o muro que separou, por várias décadas, os habitantes da cidade.
  • O combate pelos direitos civis, contra o racismo e a discriminação, na América de Luther King.
  • As reformas audaciosas de Dubcek – esmagadas pelos tanques soviéticos que invadiram Praga.
  • A fantástica revolta de maio de 1968, em Paris.
  • As lutas dos povos pelo direito à autodeterminação, na Ásia, na África e nas Américas.

Embora pareça hoje um tanto paradoxal, a verdade é que, na minha adolescência, a condenação da guerra do Vietname precedeu a tomada de consciência da natureza injusta e colonialista das nossas guerras de África que tinham sido excluídas do escrutínio público e dos meios de Comunicação Social pelo exercício minucioso da censura prévia e pela intervenção da polícia política e dos seus informadores. Contudo, desde a greve estudantil de 1969, em Coimbra, e até ao fim da ditadura, as universidades portuguesas nunca mais voltaram a ter sossego, contagiando jovens estudantes liceais, inspirando movimentos populares e reclamando uma intervenção cívica prenunciadora do golpe militar e da revolução democrática que se seguiu.

“Quantas vezes pode um homem virar a cabeça e fingir que não vê?” Assim nos interpelava Bob Dylan, em “Blowing in the wind”, no ano já distante de 1962. E é bem verdade que estes versos são intemporais e sintetizam com grande acuidade os trabalhos que esperam António Guterres e as grandes esperanças de que é portador. É o seu percurso pessoal, a sua estatura cívica, o testemunho da obra realizada no exercício das responsabilidades políticas e no cumprimento das missões humanitárias que assumiu ao longo da vida que sustentam a nossa confiança no futuro secretário-geral das Nações Unidas e que iluminam as nossas expectativas. A partir do dia 1 de janeiro do ano que vem – faltam apenas 10 semanas – António Guterres vai assumir o governo da ONU, em Nova Iorque. Tem a nossa confiança. Vai ter de enfrentar as consequências e remediar muitos erros cometidos por outros protagonistas da política internacional que bem conheceu. Mas vai fazer a diferença e demonstrar que valeu a pena.

(in Jornal de Notícias)