Opinião: O bom vento dos Açores


Não damos por isso, mas o país da comunicação está cada vez mais longe do Portugal profundo. O bom exemplo disso está na forma como os principais órgãos de comunicação social cobriram as eleições legislativas regionais nos Açores e até nas abordagens que foram sendo desenvolvidas por alguns dos que quiseram tratar o tema por Lisboa.

Este divórcio não é novo e afirma-se progressivamente. Nas três décadas seguintes ao 25 de Abril, com uma imprensa ainda muito dependente do Estado e com realidades autárquicas muito afirmadas, era possível acompanhar o trabalho dos edis que se consagravam como referência, era visível o interesse pela governação de Jardim, Mota Amaral e, depois, Carlos César. Com a abertura a privados da comunicação, com a instabilidade acionista das empresas que detêm os principais OCS, com a crise que se vive na publicidade, as opções editoriais foram no sentido do sensacionalismo e, também, do corte dos custos que a manutenção de equipas territorialmente localizadas sempre acarreta.

Nos dias de hoje, se olharmos bem para o “Público” ou para o “Diário de Notícias”, quase não há regiões; se olharmos para o “Correio da Manhã”, as regiões afirmam-se nas realidades nuas e cruas da vida dos casos; se atentarmos no “Jornal de Notícias”, o único que teima em alcançar o Porto e o Norte, consideramos que é cada vez mais Porto e cada vez menos Norte.

As eleições regionais dos Açores foram, assim, um assunto que esteve longe dos olhares dos portugueses do Continente, infelizmente. Não sei se haverá quem conheça o líder do PSD desta região e candidato a presidente do governo. Vasco Cordeiro – mesmo que boicotado em certos campos, ainda foi aparecendo porque ocupa o lugar de líder do executivo.

Há muito a fazer para voltarmos a colocar as regiões no centro da comunicação. Desde logo, os partidos nacionais não podem entregar as regiões só aos seus órgãos regionais, como que a esfregarem as mãos; depois, os partidos regionais terão de encontrar uma agenda nacional e fazer um esforço para conquistarem um espaço de radical discussão.

A campanha consagrou, por isso, várias mentiras que importa combater. A primeira mentira, muito difundida por aqui, era a que considerava os Açores como a região mais pobre. Não só não é a região mais pobre, como acontecia em 1996 quando César ganhou pela primeira vez, como já ultrapassou três das regiões do Continente em rendimento e em PIB per capita.

A segunda mentira é a de que o PS/Açores quase teve uma derrota. Esta foi muito badalada pela forma como as televisões nacionais foram tratando os resultados, desconhecendo o sistema eleitoral por ilhas e por círculo de apuramento, que agrega os restos. Mas, pela sexta vez, os socialistas aclamam uma maioria absoluta, feito único num tempo em que os poderes são voláteis, em que as exigências são grandes. Um grande resultado.

Por último, a mentira que acompanha uma certa tentação antigeringonça. O PS não perdeu um deputado para o BE; o PS perdeu um deputado nas Flores para a CDU, ganhou um na Graciosa e deixou de ter um outro em S. Jorge, pelo facto de, neste círculo, se ter reduzido o número de parlamentares a escolher. Faltou vincar um dado que só uma das televisões referiu: o PS é o único partido com deputados em todos os círculos, o único com uma implantação verdadeira em todo o território.

Dos Açores, nos últimos dias, veio a consagração da estabilidade, depois do sucesso governativo. É assim que se pode consagrar a vitória do PS, mesmo que os restantes partidos tenham apostado em fazer crescer a abstenção para valorizarem, indiretamente, o seu resultado. O PS de Carlos César e de Vasco Cordeiro abre, assim e agora, a terceira geração de quadros políticos. Porque depois deste tempo há um outro e há mais Açores para continuar a fazer valer no espaço atlântico.

(in Jornal I)