Opinião: Um Orçamento que escolhe a Europa


“O PSD devia dar os parabéns pelo Orçamento de Estado. O Bloco de Esquerda é que tem dúvidas que este seja o melhor caminho.” Catarina Martins

A líder do Bloco de Esquerda, com o habitual proselitismo que caracteriza os seguidores desta agremiação partidária, não cessa de nos assinalar aquilo que para ela constitui uma evidência: este Orçamento de Estado não se inscreve no património político-ideológico da esquerda tal como ela e o seu partido a entendem. Nisso ela revela uma total insensibilidade face às declarações do Ministro das Finanças, que em entrevista ao Expresso garantia o absoluto carácter esquerdizante do documento em questão, e uma evidente desconformidade com os actos de fé proclamados pelos jovens dirigentes de uma ala esquerda do PS que o secretário de Estado Pedro Nuno Santos considera ter alcançado a hegemonia partidária.

Para Catarina Martins, um Orçamento de esquerda teria de ter características bem distintas do actual: absoluta assumpção da ruptura com a Europa, reestruturação unilateral da dívida pública, aumento exponencial dos rendimentos do trabalho, crescimento indiscriminado do valor das pensões e alargamento da tributação sobre o capital, o património e tudo o que comporte o mais leve odor a riqueza. Foi aliás por estes motivos que o Bloco de Esquerda sempre se opôs aos múltiplos orçamentos apresentados pelo PS na Assembleia da República, quer no tempo de António Guterres, quer na fase de José Sócrates. Nessa altura, para o Bloco de Esquerda, o PS – comprometido com o projecto europeu, empenhado no cumprimento das regras acordadas com os vários parceiros da União Europeia e atento à necessidade de não hostilizar os princípios básicos de uma economia social de mercado – não passava de uma nova manifestação da velha traição social-democrata que tanto indignara historicamente a tradição marxista mais dura, tivesse ela uma expressão leninista ou um rosto trotskista.

O Orçamento agora apresentado revela uma característica fundamental: António Costa está mais preocupado com Bruxelas do que com o Bloco de Esquerda e o PCP. É certo que atende a algumas reivindicações destas forças partidárias – nalguns casos com consequências ulteriores potencialmente negativas – mas no essencial procura respeitar os exigentes critérios estabelecidos a nível europeu em matéria de cumprimento de objectivos nos domínios do défice orçamental e da dívida pública. Por isso mesmo, Catarina Martins não deixa de ter alguma razão: esta proposta orçamental está substancialmente mais próxima das opções políticas e programáticas do PSD do que da doutrina do Bloco de Esquerda. Dir-se-á que vivemos no tempo do cinismo, do paradoxo ou tão só do calculismo universalmente partilhado.

Uma coisa é certa: tal como tenho vindo a dizer desde sempre, António Costa tem um talento tal que merecia um projecto de outra natureza. Talvez isso ainda venha a ocorrer. Pedro Nuno Santos acha que há uma direita no PS meramente residual. E se um dia ele chegasse à conclusão de que António Costa não está assim tão longe dessa ala direita e que ela no fundo constitui o garante da fidelidade do PS não apenas ao seu próprio passado mas sobretudo ao seu desejável futuro? Com uma pequena ressalva: não há direita no PS, por muito que isso desagrade aos jovens turcos momentaneamente inebriados pelo fulgor e pelo brilho da sua líder natural a brilhante Mariana Mortágua do Bloco de Esquerda.

Nos próximos tempos, muitas coisas vão mudar na vida política portuguesa. O Presidente Marcelo indicia-o, a honesta Catarina comprova-o, o plural PS demonstrá-lo-á. As coisas quase nunca são o que parecem ser. Esperemos sem demasiada ansiedade pelas cenas dos próximos capítulos. Este Orçamento de Estado revela algo de fundamental. Revela que entre a permanência na Europa e o entendimento com a extrema-esquerda portuguesa António Costa fez uma opção: a opção pela Europa.

Não pude ir ao funeral de José Lello. A vida nem sempre se compadece com a nossa vontade. Lello era um dos meus melhores amigos no PS. Divergimos várias vezes. Chegámos ao ponto da altercação primária, mas nunca pusemos em causa a profunda ligação que nos unia. José Lello, contrariamente à imagem que dele projectou uma certa oligarquia lisboeta, era o oposto de um homem do aparelho partidário. Era inteligente, livre, criativo, iconoclasta e muitas vezes profundamente solitário. Lembro-me dele desde os tempos em que foi vereador da Câmara do Porto, mais tarde líder de uma facção portuense em que me reconheci, e posteriormente o melhor secretário de Estado da Emigração da nossa história democrática. José Lello era leal mas nunca foi servil. Tinha esse espírito liberal que identifica o melhor nos políticos portuenses. Nunca o vi de cerviz curvada a enaltecer a pobre corte lisboeta. Terá pago um preço por isso, mas esse preço é uma homenagem à liberdade. Ao longo dos últimos 30 anos convivemos muito, e mesmo quando divergimos nunca deixámos de manter uma relação de sólida amizade.

Quando me telefonaram a informar da sua morte as lágrimas irromperam, prova clara da importância que ele tinha para mim. Vai-nos fazer falta este homem de espírito livre, de humor complexo, de convicções firmes. Agora que ele morreu lembro-me das vezes em que ambos nos irritámos um com o outro. Também nisso há uma forma de proximidade. José Lello era um amigo, um companheiro, um viajante do mesmo percurso. Para além de tudo era um homem que nos tornava a todos nós um pouco mais felizes; e embora isto possa soar a uma fórmula, na verdade reveste-se de uma complexidade que não vale a pena explorar nesta hora de tristeza. José Lello será sempre para mim muito mais do que a sua pura biografia política.