Opinião: Um ano de governação à esquerda


O feito mais extraordinário do primeiro-ministro, quanto a mim, é outro: trata-se de ter conseguido concitar o apoio da extrema esquerda para uma política essencialmente subordinada ao equilíbrio orçamental.

Quando a minha amiga São José Almeida e o meu amigo David Dinis me convidaram para escrever este depoimento, o balanço de um governo a cuja formação me opus, ponderei declinar. Aceitei, mas terei de fazê-lo à minha maneira. Não me enredarei nos dados disponíveis respeitantes ao desempenho da economia para me defender numa falsa objectividade. O tempo não tardará a pôr ordem na cacofonia de análises concorrentes. Proponho um texto impregnado de subjectividade. Se está a ter a boa vontade de ler estas linhas é porque o David e a São José o publicaram.

Mário Soares é o que de mais parecido encontrei na vida com um príncipe do Renascimento. O espanto é geral com o golpe militar inédito que derrubou uma ditadura, abrindo caminho para a democracia e para a restituição das Liberdades. Curiosamente, a ninguém impressiona que o campeão da democracia tenha sido um príncipe do Renascimento. Mais culto, sofisticado e sagaz que a esmagadora maioria daqueles entre os quais trabalhou, Soares nunca traiu a sua fé democrática, e soube persuadir um país com indicadores do terceiro-mundo de que a solução estava no modelo ocidental, numa época em que todos os deserdados da terra se viravam para o leste. Não apenas os deserdados mas também um contigente avassalador de intelectuais, alguns dos quais dos maiores espíritos do século.

Optimista, perdia a paciência com o meu pessimismo, às vezes paralisante. O optimismo é racional – dizia-me. As coisas mudaram de maneira inimaginável para um homem do meu tempo, eu nasci num mundo brutal. O PS era o seu stradivarius. O instrumento da mudança e do progresso requeria violinistas à altura, não podia ser comprometido, era indispensável a Portugal, pertencia a Portugal. Era parte fundamental da sua obra, do seu legado duradouro. Tem sido essa uma constante da vida de Mário Soares: um olho em Portugal, outro no seu stradivarius.

A minha vida ficou moldada pelo poderoso exemplo. Conciliar em permanência o país, o stradivarius e os violinistas do momento. Mas, sem o génio de Soares, o que é difícil torna-se, por vezes, impossível.

O nosso governo é inédito a dois títulos. Primeiro, porque resulta de uma maioria formada com o propósito de excluir do poder o partido que venceu as eleições. Segundo, porque essa maioria uniu partidos que, desde a fundação do regime, podendo convergir no “acessório”, divergiram radicalmente no essencial: o modelo de sociedade, a Europa, a Nato. Ou seja, inconciliáveis na sua mundividência e nas escolhas fundamentais sobre o destino no longo prazo de uma nação antiga, devolvida ao espaço exíguo que foi o seu até 1415, e que então se julgou insuficiente para garantir a sobrevivência nacional. Não pretende esta síntese amesquinhar a maternidade de substituição ou outras matérias em que a actual coligação de governo gerou entendimentos operativos. A política de rendimentos, com o desmantelamento das medidas de ruína e confisco do anterior governo, são a merecida coroa de glória da actual maioria. O fim da sobretaxa no IRS e a reposição do subsídio de Natal vão fechar um ciclo em que, dispondo de condições francamente adversas, o governo de Antonio Costa cumpriu um compromisso eleitoral, coisa de que estávamos já desabituados e que produzirá um efeito positivo duradouro, espero, no regime. Outro feito, com impacto duradouro, é a corresponsabilização da extrema esquerda pelos resultados governativos. As direcções do BE e do PCP são mais influentes que – já não direi a bancada parlamentar do PS, porque isso é dolorosamente patente – mas que a maior parte, senão todos, os ministros. A deputada Catarina Martins, fazedora de governos, merece tanto o epíteto como Lord Warwick, hoje lembrado como Warwick the Kingmaker.

As implicações de um novo BE, agora ungido pelo poder, no sistema partidário, não vêm aqui a propósito. Mas o batismo de fogo de uma força vociferante de protesto, que faz o seu tirocínio de poder partilhando o pesado fardo da governação – terá, seguramente, alguns efeitos positivos.

No entanto, o feito mais extraordinário do primeiro-ministro, quanto a mim, é outro: trata-se de ter conseguido concitar o apoio da extrema esquerda para uma política essencialmente subordinada ao equilíbrio orçamental. É como se Mário Soares, no ajustamento de 83-85, tivesse aplicado em coligação com o PCP a receita prescrita pelo FMI, sem necessidade de Bloco Central. Aqueles que amesquinham o talento politico do primeiro-ministro são livres de tentar igualá-lo.

Infelizmente a necessidade é má conselheira. Não há-de ser fácil conjugar a necessidade de aumentar a receita (na ausência de crescimento assinalável da economia), ponderar os impactos das decisões no país, e segurar, ao mesmo tempo, o indispensável apoio de partidos com culturas políticas muito distintas, alguns dos quais viciados na ponderação do belo efeito do que dizem na respectiva plateia.

A Europa e a Nato permanecem incólumes, como eixos fundamentais e linhas de continuidade da política portuguesa, independentemente dos governos, das reais divergências e dos dramáticos enfrentamentos encenados para a galeria. Que assim continuem. E que a ninguém ocorra fazer transacções ditadas por conveniências de curto prazo, indiferentes aos interesses permanentes do nosso país. Um dia Mário Soares participava numa reunião da Internacional Socialista presidida por Willy Brandt, por volta de 1980. O Partido Trabalhista, dilacerado pelas divisões internas e pelo sectarismo, preparava-se para enfrentar Margaret Thatcher. Não sei se Foot ou Kinnock anunciaram na reunião que, caso vencessem as eleições, mandariam tirar de solo britânico os mísseis estratégicos, adoptando uma política de desarmamento nuclear unilateral. Soares, que via os pacifistas todos de um lado e os mísseis do outro, respondeu aos seus camaradas, numa época em que a palavra “camarada” encerrava um profundo significado internacionalista: “Se é assim, só posso desejar que percam”.

Uma nota final sobre política externa: muito tem sido sacrificado a uma afirmação empertigada do interesse nacional. Faço um voto singelo: que a nova pose signifique um contraste com o passado recente dos últimos anos, mas não com trinta anos de política portuguesa na Europa.

(in Público)