Opinião: Primeiro round nos EUA


Todos esperavam que Hillary aparecesse como a candidata mais bem preparada. O que poucos esperariam é que ganhasse o debate presidencial no terreno do seu adversário, descredibilizando-o e expondo as suas fraquezas. As sondagens indicam que os americanos a veem como a vencedora do debate, mas ainda está por perceber como é que isso se refletirá na campanha.

Mas a grande questão persiste. Como é que um candidato com um longo historial de frases racistas e contra as mulheres, e que gera a rejeição quase unânime das principais figuras do seu partido, parece capaz de ganhar as eleições nos EUA? Há quatro dados que ajudam a entender este fenómeno.

Em primeiro lugar, a normalização. Clinton é avaliada como a candidata do sistema. Trump é um homem do entretenimento e as suas tiradas são vistas como uma espécie de anedota. Frases que acabariam de vez com qualquer político passam como uma breve polémica até à próxima controvérsia. Um frenesim que torna a personalidade de Trump no único tema de campanha.

Em segundo, esta violência discursiva não começou agora. É fruto de uma sociedade dividida e onde os compromissos políticos são uma raridade. A radicalização do partido Republicano, que acusou Obama de não ter nascido nos EUA e de ser um agente da Al-Qaeda, ajuda a que as piores frases de Trump pareçam quase normais.

O terceiro ponto é a dificuldade de Hillary, demasiado otimista quando fala da economia, em convencer os operários que se identificavam tradicionalmente com os democratas. Já tinha acontecido com Sanders, que ganhou em quase todos os estados onde a deslocalização industrial foi tema. É um fenómeno em tudo idêntico ao Brexit. A economia cresce mas deixa para trás inúmeros perdedores da globalização.

Por último, tal como no Brexit, uma democracia pós-factual. A crise da imprensa, cuja resposta às redes sociais foi basear-se cada vez mais no seu estilo, favorece a máquina de Trump. Pouco interessa se o que diz é verdade ou é mentira (e é quase sempre), se a retificação surge numa pequena nota de rodapé. É uma campanha sem temas. O tema é Trump.

Veremos se a boa prestação de Hillary no debate lhe permite marcar a agenda e trazer a campanha para onde menos convém a um populista: a discussão dos problemas reais que afetam uma sociedade cada vez mais complexa.