Opinião: O estado da (des)União e o medo da convergência


Se o medo é o principal ingrediente para ganhar eleições, então o medo dos líderes que pugnam pela União está a entregar o poder de mão beijada a quem quer o seu fim.

Em política, o medo é o melhor ingrediente para ganhar eleições, sobretudo em tempos de crise e de incerteza. Será sob o signo do medo insuflado voluntária ou involuntariamente por muitos líderes políticos europeus que Jean-Claude Juncker se dirigirá hoje ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, para debater o estado da União.

Assolada durante quase uma década pela cartilha neoliberal da austeridade regeneradora e enfraquecida pelo aumento das desigualdades e pela quebra de confiança dos cidadãos na capacidade de resposta das instituições, a União Europeia e os seus Estados-membros enfrentam agora uma onda preocupante de nacionalismos de diferentes matizes, com predominância para os nacionalismos radicais de extrema-direita.

O discurso nacionalista é simples mas eficaz. A ideia-base é que são as regras e as normas europeias as responsáveis por todas as dificuldades que os povos europeus enfrentam.

Seguindo este raciocínio, os nacionalistas proclamam que basta remover os compromissos decorrentes da participação de cada nação na União Europeia para que, como que por milagre, tudo volte a ser como era antes da crise económica e das crises de segurança e controlo das migrações.

Foi este o discurso ganhador no referendo britânico e que tem contaminado outras eleições, de que o caso do estado alemão de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é um impressivo e recente exemplo.

Acredito que, no seu discurso de hoje, Jean-Claude Juncker combaterá esta narrativa. Não obstante alguns engulhos causados pela sua gestão caseira (LuxLeaks), Juncker é um convicto europeísta e tem estado do lado certo da história neste período difícil da União.

O mesmo não se pode dizer de muitos líderes europeus que, ao mimetizarem os discursos nacionalistas, só os valorizam e credibilizam. Parecem ignorar que, se os eleitores quiserem fazer recuar o projeto europeu, preferirão quem o propõe como estratégia a quem o insinua como tática.

Não são as normas e as regras europeias que estão a criar problemas aos cidadãos. Muitas normas europeias são, aliás, marcos civilizacionais e deveriam constituir referências para uma globalização regulada. O problema da União são as políticas ou a sua ausência, designadamente o desaparecimento do princípio fundamental da convergência, que é a chave para o futuro da UE e para a criação de uma dinâmica sustentável de crescimento e emprego.

Os inimigos do projeto europeu já colocaram um selo ao princípio da convergência, fazendo-o equivaler a transferências financeiras de compensação. É um erro. Convergir é ficar mais forte em conjunto, partilhando soberania para ganhar capacidade de afirmação dos povos, das culturas e dos territórios.

Quantas vezes falará Jean-Claude Juncker do princípio da convergência no seu discurso do estado da União? Antevejo que algumas, embora por outras palavras, e esse receio de falar diretamente de convergência será um sintoma de fragilidade do estado da União.

Se o medo é o principal ingrediente para ganhar eleições, então o medo dos líderes que pugnam pela União está a entregar o poder de mão beijada a quem quer o seu fim.