Opinião: Social – Democracia 4.0 – O resgate dos desenganados


Tal com a classe média económica se desfaz em novas e mais profundas desigualdades, também a “classe média” do espectro político se vai diluindo em extremos cada vez mais polarizados

A aproximação de eleições na Alemanha e em França terá um enorme impacto no debate político nos próximos meses, não apenas naqueles países, mas em toda a Europa e no mundo. Veremos como os diversos projetos políticos em confronto conseguirão conjugar a complexidade do que está em jogo com a simplicidade necessária num discurso ganhador.

A maior facilidade da direita neoliberal e dos populistas radicais em lidar com a complexidade, descartando-a, ou representando-a em caricaturas para agradar aos vários públicos-alvo, tem sido uma das razões dos seus ganhos eleitorais recentes.

Poderão os social-democratas encontrar uma resposta para este desafio? Não será fácil e implica sair da zona de conforto ideológico e arriscar no envolvimento direto das pessoas no desenho dos seus programas políticos. Só a Politica 4.0 pode salvar a social-democracia do risco de irradicação dos novos mapas políticos.

Vejamos o exemplo francês. Os socialistas no governo esfacelam-se e dividem-se com o aproximar do pleito presidencial. Duma mesma área política nasce um cacharolete de estratégias e de discursos, cada um afirmando-se mais eficaz que o outro para vencer os populismos. Nenhum o conseguirá, exceto se um movimento forte de base desenhar em rede um projeto alternativo e escolher um deles para lhe dar rosto.

Num quadro de desigualdades cada vez maiores e de uma globalização que as amplifica todos os dias, é decisivo conseguir conquistar o poder envolvendo os eleitores, usando com simplicidade, a verdade dos factos e a urgência dos desafios.

Quando confrontada com a ausência de garantias e direitos para as pessoas e de respeito pela sustentabilidade do planeta em largos territórios do globo, contrastando com as boas práticas ainda vigentes na União Europeia, a direita neoliberal quer tornar a Europa como o resto do Globo.

Os social-democratas batem-se pelo contrário. Querem tornar o globo mais parecido com a UE no respeito pela democracia, pelos direitos humanos, pelo estado de direito, pelos direitos sociais, pelo ambiente e pela cooperação entre os povos.

No entanto a forma como os social-democratas têm passado esta mensagem não tem sido eficaz e a dicotomia entre o radicalismo de esquerda e de direita vai deixando um vazio político cada vez mais notório.

A desregulação da globalização está a enfraquecer a identidade do projeto europeu, a dimensão social e ambiental, a tradição de cooperação para o desenvolvimento e a robustez democrática.

A proclamação desta verdade tem desanimado as pessoas, levando-as a escolhas contra a integração europeia e a favor de visões populistas e antieuropeístas. Com esta mesma verdade os social-democratas têm que empolgar os cidadãos para serem eles a protagonizar um ponto de viragem e a fazerem acontecer um novo projeto partilhado para a Europa.

Tal com a classe média económica se desfaz em novas e mais profundas desigualdades, também a “classe média” do espectro político se vai diluindo em extremos cada vez mais polarizados.

O resgate dos desenganados da política é o berço da nova social-democracia europeia. O berço e a textura. A sua oportunidade de futuro.

(in Jornal I)