Opinião: Miséria da política!


O senso comum não é um recurso escasso. Bem pelo contrário, é a sua abundância e fácil acessibilidade que o transforma num poderoso instrumento persuasivo que dispensa o debate, evita a ponderação de outras possibilidades e apazigua a inquietação da dúvida. Claro que, frequentemente, o senso comum também evita esforços desnecessários e, então, preferimos designá-lo por bom senso. O sentido partilhado – menor denominador comum de outros sentidos possíveis – valida-se pelo próprio ato de partilha de uma evidência anónima. Galileu foi perseguido por afirmar que a Terra girava à volta do Sol e Fernão de Magalhães empreendeu a penosa viagem de circum-navegação para que a cartografia se resignasse a admitir que a Terra, afinal, era redonda!

Foi por abusar de tão cómodas evidências com o fito de encobrir o funcionamento perverso da moeda única e justificar a penalização das economias mais vulneráveis da União, que a Europa chegou ao impasse em que se encontra. Os gregos foram submetidos a um programa brutal por serem indolentes e mentirosos. Os portugueses queriam viver acima das suas possibilidades e por isso foram submetidos à terapia de choque das políticas de austeridade para se tornarem mais diligentes e competitivos. Parece justo: causas e consequências são reduzidas a pecado e a castigo, uma fórmula de fácil adesão e óbvia moralidade que transforma os factos em normas e que se funda nas evidências do senso comum. Só depois do colapso do sistema partidário grego e da vitória eleitoral de Alexis Tsipras, surgiram as primeiras fissuras na aparente unanimidade até aí reinante, quando se frustrou, por fim, a diabólica tentativa de expulsão da Grécia da União Monetária.

Entre nós, a tendência para a desqualificação dos argumentos e o apelo emotivo às motivações mais básicas superou na última legislatura todas as expectativas. O PSD e o CDS transformaram as suas opções políticas em mera execução técnica de uma receita inquestionável, estritamente ditada pelas exigências dos credores, a vontade dos mercados, a culpa e a expiação coletiva. Excluída qualquer oportunidade de confronto ou negociação, interna e externa, todo o sofrimento se tornou numa fatalidade merecida e a salvação, uma graça incerta. O próprio Passos Coelho interiorizou a tal ponto a realidade do Inferno por ele inventado que ainda nele continua a arder.

Contudo, a simplificação brutal do discurso político prossegue o seu caminho na Hungria ou na Polónia e alcançou inimaginável desfaçatez nos Estados Unidos da América, onde um candidato presidencial que o Partido Republicano nunca admitiu que pudesse ultrapassar a etapa das eleições primárias, se oferece agora como a alternativa de governo à candidata do Partido Democrático. Se a criminalidade, o desemprego e os baixos salários que afligem os americanos são culpa dos estrangeiros, Donald Trump logo tira do bolso uma solução: expulsar os imigrantes e construir um muro na fronteira com o México!

Consumado o vergonhoso processo de destituição de Dilma Rousseff, o Senado brasileiro prepara a definitiva subversão do regime constitucional para entronizar um presidente não eleito no lugar da presidente escolhida pelo povo brasileiro para governar o país. O instinto de sobrevivência, a falta de escrúpulos, a baixa qualificação cívica de 61 senadores prevaleceram sobre a vontade expressa de dezenas de milhões de brasileiros. Que futuro estará reservado a este país onde a democracia tinha finalmente adquirido um significado real e concreto, graças às profundas transformações sociais e políticas promovidas pelo PT de Lula da Silva e Dilma Rousseff?

(in Jornal de Notícias)