Opinião: Uma Caixa mais sólida


Nem sempre o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. O processo de recapitalização da Caixa aí está para o comprovar. Tendo começado mal – com uma comunicação desencontrada, um processo que se foi arrastando e o escusado caso à volta dos administradores – acabou com boas notícias para o país.

Resumidamente, o que resulta das negociações entre o Governo e Bruxelas é que a Caixa fica um banco mais sólido, mantém-se a 100% em mãos públicas e a recapitalização não conta para o défice. No essencial, as pretensões portuguesas foram aceites e teremos uma Caixa com mais músculo para financiar as empresas e relançar a atividade económica.

É verdade, e não há como negar, o Estado vai voltar a colocar dinheiro na Caixa. O financiamento público pode chegar aos 2700 milhões de euros em capital e mais 900 milhões em receitas contingentes que o Estado não irá receber. Como estas necessidades de capital não surgiram de um dia para o outro, cada vez menos se compreende como é que Passos Coelho recusou usar metade do dinheiro previsto no memorando de entendimento para manter a estabilidade do sistema financeiro.

Não conhecemos ainda os detalhes do plano de reestruturação, mas já sabemos que não irá penalizar o défice. Ora, estando o país há 5 anos no radar de Bruxelas por violar os limites do défice (e arriscando sanções por isso), a única forma de manter a Caixa em mãos públicas era a recapitalização não contar para o défice.

Aqui chegados há uma leitura política a fazer. O Governo, e em particular Mário Centeno, tem uma vitória política; Passos Coelho sai fragilizado. Fragilizado pelo que não fez na banca, ao deixar arrastar os problemas sem os resolver, num cálculo eleitoralista com elevados custos para o país, e pela sua aposta em como o país seria sancionado e como o financiamento da Caixa contaria sempre para o défice. Daí que, carregando nas tintas, Passos tenha anunciado a vinda “do diabo” em setembro. Pois, como se vê, nem sanções, nem desastre na Caixa e menos ainda o diabo.

Passos Coelho parece ter-se especializado em profetizar a desgraça que virá de Bruxelas. Pois o que tem acontecido, vez após vez, é o Governo negociar e chegar a um entendimento. A ideia que fica é que, tentando, é possível convencer Bruxelas a ceder às pretensões portuguesas e que o problema de Passos foi nunca ter tentado.

(in Correio da Manhã)