Opinião: A Geringonça e o exercício do poder


As soluções políticas para a governação são todas legitimas quando assentam na boa leitura das leis constitucionais. Em Portugal vivemos uma novidade na construção de um governo que não parte do partido com mais deputados nem tem uma maioria absoluta garantida na sua base de indigitação. Trata-se de uma realidade que nos diz que o simbolismo do poder se consagrava, em finais do passado ano, em dois universos – negação e mínimo denominador comum.

Há quase um ano formou-se uma maioria de rejeição. Em Portugal, como em Espanha por estes dias, a soma dos votos dos portugueses ouvidos era maior para o lado de uma outra política e a gestão das expectativas determinou uma separação entre ter mais deputados por grupo parlamentar e opção viável. Ou seja, a negação de uma nova oportunidade para a mesma “chapa” de liderança governativa.

A realidade temporal agregada a limitações constitucionais do Presidente da República, promoveram o mínimo denominador comum. Foi assim que de três acordos se fez uma solução para a gestão da coisa pública que até agora não vacilou.

Todo este tempo dará pano para mangas na investigação em ciência política, mas tal só foi possível porque os protagonistas eram estes, são estes – António Costa e Pedro Passos.
O tempo decorrido já garantiu uma saída “limpa” para o PS. Desde que este governo não seja obrigado a retirar-se de cena por necessidade de intervenção financeira externa, o PS garantiu a dobradiça do sistema partidário, garantiu a sua máxima força de partido hábil para todas as situações. Sim, porque esta solução não impede, no futuro, outras que se venham a colocar, até porque em democracia e em cada tempo a realidade política obriga a estar à altura das circunstâncias.

Dacher Keltner, o grande pensador sobre os paradoxos da governação, diz-nos que o poder em tempo de virtualização e de efemerização assenta em quatro características: empatizar, conceder, exprimir gratidão e contar histórias.

Olhando estes pontos de análise demos com o nosso pensamento a pesar o atual poder. Adriano Moreira concede que o poder é a soma de muitos poderes, ou seja, o poder do líder é tanto maior quanto maior for o poder e a autonomia dos restantes poderes. Está claro que os poderes nunca se comportam sempre em crescimento, porque há fenómenos que não controlamos, movimentos que nos fogem do comando, decisões que tomamos perante grupos opostos. Mas o que interessa é o quadro geral.

O governo português tem empatia pelo lado do líder. Sabemos que isso atravessa uma parte significativa da decisão de aprovação. Mas, como em todas as equipas, não podem os restantes membros quedar-se numa espécie de tristeza missionária, que revele as inevitabilidades do Não e impeça os amanhãs que cantam. Importa insuflar alegria nos membros do governo.

Conceder, como elemento central do poder, é o grande campo de ação da geringonça. Ao contrário da opinião publicada, a concessão não é nefasta. Só as cabeças formatadas pelo terror da ditadura salazarista diabolizam o ato de conceder. Este tem sido o cerne da atuação ministerial, e, olhando unicamente para o retângulo, trata-se de uma boa “malha”. O problema do conceder é a sublimação da tática. Mas também aqui tudo está a mudar. Muitos dizem que falta estratégia aos países, às empresas, às famílias. Não, a visão estática da estratégia morreu e o tempo da sua aplicação, fruto da inovação, da democratização do acesso à informação e a da globalização, encurtaram o médio prazo e eliminaram o longo prazo.
Na política como nas empresas o autocentrismo está muito presente. Ary Ferreira da Cunha, na sua análise sobre o exercício do poder, diz-nos que há dois vícios que se atravessam na atividade política: a apropriação das ideias e a ingratidão. Ora, se o líder tem a outorga para o apoderamento das ideias já não tem autorização para a não expressão da gratidão. A expressão da gratidão, como elemento central do exercício do poder, deve ser diária. Expressá-la pelos contributos dos seguidores mas, mais importante ainda, expressá-la pelo desassombro dos críticos, pelo contributo radical de ideias contrárias, por aquilo que Jack Welch chama de frontalidade, a coisa mais difícil de fazer nas organizações e mais penosa de aceitar. Os núcleos duros dos governos, como demonstram as biografias de Thatcher e Blair, garantem vitórias e futuro enquanto têm cabeças a pensar diferente, enquanto há o tempo e mentes suficientes para não incorporar a desconfiança.

Por último a obrigação de contar histórias. Tenhamos a idade que tivermos nada nos dá mais prazer do que ouvir uma boa história. Toda a realidade é ficcionada, como nos obriga a pensar Oscar Lopes. Ora bem, não há política, muito menos políticos que fiquem na nossa memória pelos aspetos positivos, se não tiverem histórias para contar. Importa que os membros do governo aprendam o básico do storytelling, que se assumam por um estilo e por uma peculiar maneira de vender o seu produto. Não há futuro se não houver histórias para todos os universos e, pelo meu fraco ponto de observação, só em dois ou três ministérios encontro uma narrativa coerente.

Tudo isto é uma base para um melhor futuro. Em boa verdade há ainda muito na política que se desenvolve com base nas ideias do príncipe florentino. Sim, Maquiavel não morreu, mas temos que convir que as suas ideias devem obter, por este tempo, outras roupagens.

(In Acção Socialista)